Sharing ; )

Wednesday, September 25, 2024

[ As silenciosas masmorras têxteis andantes das mulheres Afegãs ]


 

generativePROMPT:

Gerar uma imagem que ilustre o mais recente manifesto de respeito e defesa da dignidade, por parte da facção Taliban do Afeganistão moderno, dirigida às suas adoradas mães e avós, queridas irmãs e primas, veneradas noivas e esposas, amadas filhas e netas… e restantes mulheres afegãs.

.

Há um mês que nas masmorras têxteis andantes do Afeganistão, as, por decreto de nascimento eternamente aprisionadas mulheres, vivem também a imposição do silêncio.

.

shhhhhhhhhhh…


––––––––


Anteontem, 23 de Setembro de 2024, publiquei na minha conta de Instagram esta ilustração, como parte de uma animação evocativa da calamidade que assola a condição feminina no Afeganistão.

Nesse mesmo dia, a fantástica atriz Merryl Streep, discursou sobre este tema nas Nações Unidas, num evento paralelo à Assembleia-Geral da ONU.

Esse discurso chegou ontem às redacções e noticiários, e referências ao mesmo estão hoje em alguns jornais nacionais.

As suas acutilantes referências promovem a reflexão sobre esta realidade e ajudam a interiorizar a dimensão do drama.

Acontece no lado mais escuro das sociedades humanas presentes neste planeta no ano de 2024, e não parece que essa realidade vá mudar tão cedo.



Abaixo reproduzo um excerto da notícia presente na edição online de hoje, do jornal Público, seguida do link para a notícia.



“Um esquilo tem mais direitos do que uma rapariga no Afeganistão”, acusa Meryl Streep


“Actualmente, em Cabul, uma gata doméstica tem mais liberdade do que uma mulher. Uma gata pode sentar-se no alpendre da sua casa e sentir o sol na cara. Ela pode perseguir um esquilo no parque. Um esquilo tem mais direitos do que uma rapariga no Afeganistão de hoje, porque os parques públicos foram fechados às mulheres e às raparigas”, declarou Streep.

“Um pássaro pode cantar em Cabul, mas uma rapariga não pode e uma mulher não pode cantar em público. Isto é extraordinário”, afirmou, desafiando os líderes globais à acção: “A comunidade internacional, como um todo, se se unisse, poderia efectuar uma mudança no Afeganistão e parar a lenta asfixia de... metade da população.”


https://www.publico.pt/2024/09/25/impar/noticia/esquilo-direitos-rapariga-afeganistao-acusa-meryl-streep-2105402

Friday, August 9, 2024

[ AI art, ou… O vazio emocional a montante]

 





O primeiro Tote Bag estampado da Maria Cidrão Delicatessen exibe uma couve lombarda na sua face exterior.

Por baixo, encontra-se um bloco de referências gráficas textuais que agrupa o logótipo da Maria Cidrão Deli, o meu nome (autor do boneco), e, a marca "no AI – Only human generated content".


*


Como já referi neste blog, acredito que num futuro próximo (o qual se aproxima a um ritmo para todos surpreendente), o manifesto claro referente à componente de geração humana de conteúdos, fará todo o sentido, e tornar-se-á uma realidade generalizada, nos objectos de comunicação em que tal se verifique. Equiparei-o anteriormente à distinção dos alimentos biológicos dos restantes alimentos, através da presença da simbologia gráfica que conhecemos.

Este manifesto ocorrerá, creio, por parte das várias entidades promotoras da geração dos conteúdos em causa, quer sejam os agentes geradores propriamente ditos (artistas visuais, escritores, jornalistas, músicos, etc.), quer sejam os promotores da encomenda (editoras, jornais, revistas, etc.).

Acredito que tal ocorrerá, enquanto afirmação do valor acrescentado que a produção humana de arte virá a representar, relativamente aos objectos de comunicação, ou obras, a que esse manifesto se venha a referir.

Mas que valor é esse?

Tenho bebido visualmente gigabites de imagens geradas por AI, e… que espectáculo deslumbrante.

Que eficaz sedução visual… Só que nessa sedução, ao contrário do que acontece do lado de cá (o lado dos seduzidos), do outro lado deste flirt contemplativo (o lado do sedutor), não existe nenhum coração emotivo.


*


Enquanto criador de ilustrações, tenho a sorte de, ao longo deste percurso de vários anos, ter em alguns momentos, vivido a experiência de algumas pessoas me manifestarem o seu profundo agrado, gerado pela observação deste ou daquele trabalho que me tem por autor.

Essa manifestação deixa-me feliz, e, eu expresso isso mesmo à pessoa em causa. É sempre essa a minha resposta. Em alguns casos acrescento ainda a seguinte ideia – a de que fico muito contente por saber que algo por mim criado, com tanto significado para a minha pessoa, faz também sentido para mais alguém.

Neste processo, eu, enquanto criador, desenvolvo o meu trabalho em torno de uma construção conceptual, a qual assume posteriormente uma forma, forma essa que é simultaneamente veículo para o conceito original e, eventualmente percutor para a deflagração de novos conceitos e emoções na leitura do fruidor.

Há nesta experiência uma noção implícita de partilha através da obra, de envolvimento conceptual e emocional, entre os vários agentes intervenientes, partilha essa que, por vezes, transcende a descodificação do próprio conteúdo conceptual (o qual pode ser lido diferentemente pelas partes).

O visualmente deslumbrante conteúdo emanado de bits e bytes, estruturantes de algumas imagens geradas por AI,  está embebido de características formais que admiro, as quais, em muitos casos, poderiam até facilmente constar da lista de aspectos que eu ambicionaria ver associados a alguns dos meus trabalhos – modelação da luz, tratamento cromático, perspectiva, trabalho figurativo/representativo, tratamento da cor, ou até a aparente estrutura conceptual sugerida pelo todo…

Mas, a montante da experiência de fruição não há, nem nunca haverá… emoções… A experiência de fruição encontrar-se-á sempre amputada da componente da partilha emotiva resultante do encontro na experiência geradora de significados.

Esse património emotivo acumulado, que nos faz encarar com uma expectativa emocional positiva, a possibilidade de conhecer um determinado artista ou autor de trabalho que nos "agrada" (expectativa essa que nos leva por exemplo a uma sessão de autógrafos de um livro, disco etc. ou a uma inauguração de uma exposição), no caso dos conteúdos artísticos gerados por IA apresenta um problema.

Do outro lado, estará sempre uma entidade criativa esvaída de alma, um vazio que despacha obras a uma velocidade estonteante… visuais, sonoras, tácteis… a partir de operações de processamento electrónico, originadas por processos totalmente analíticos, de estudo, aprendizagem, dissecção e composição, desenvolvidos com foco na satisfação de um objectivo prático, desligado de toda e qualquer poética, e muito… muito manipulador dos seus humanos espectadores. A comoção criativa, em todo este processo, é inferior à de quem calcula raízes quadradas, ou resolve equações de segundo grau. A sua comoção é a da nulidade matemática…  zero.

Essa entidade é gelidamente exímia na desconstrução e análise dos factores que tornam admirável, uma criação admirável. Com base nessa dissecção predatória de linguagens humanas pré-existentes (a qual tem originado a instauração de vários processos judiciais em vários países), identifica ingredientes formais e elabora novas receitas compositivas. O seu objectivo, na criação de novas conjugações, é o da materialização maquinal de um enunciado (prompt), sendo ela (entidade criadora) totalmente imune aos recursos encantatórios que utiliza. Gera algo cujo sentido emocional é totalmente incapaz de abarcar. Ela (entidade criadora) é incapaz de… sentir.

Na "arte" gerada por AI a construção emocional é sempre total e exclusivamente um fenómeno limitado ao observador. 

Quão solitário é esse cenário…

Haverá quem viva bem numa existência em que a fruição tem estas caraterísticas?… certamente que sim. Quem, indo eventualmente a um qualquer tipo de museu, percorre os seus "corredores" apenas vendo, e não, contemplando… sem nunca sentir o apelo de vislumbrar o espírito que habita as obras que “lhe causam agrado”.

Há dias, contemplando a três metros de distância, o retrato de Filipe IV pintado por Diego Velázquez, dei comigo a pensar em quão diferente seria aquela experiência de fruição, caso aquele quadro tivesse sido produzido maquinalmente pelos desígnios computacionais de AI… Proponho esse exercício mental perante uma qualquer obra admirável, a todos os que analisam a questão da transferência criativa da humanidade para a AI.

A verdade é que boa parte do fascínio exercido em nós pelas obras de arte, resulta também de aspectos humanos externos à obra em si, e referentes ao autor da mesma. Boa parte desse fascínio resulta das características do contexto vivencial do artista na materialização da obra.

Factores como por exemplo: o contexto social da criação, os recursos materiais e técnicos disponíveis para aquela pessoa, o nível de formação do artista, ou, por oposição, e de forma ainda mais relevante, o seu carácter autodidata e a ausência dessa tal formação artística.

Na relevância desse contexto, cada recurso técnico que intervêm em auxílio do artista, retira um patamar de valor à obra. À semelhança do sucedido  num número de circo, cada dificuldade ou obstáculo que acresce à tarefa do artista elevará o estatuto da obra a um novo patamar. A produção de arte através de ferramentas de AI corresponde ao esvaziamento total desse contexto.

No universo da AI, a envolvente da obra… resume-se ao modelo do processador, à versão do software gerador, e, eventualmente, às características semânticas do “prompt” primordial.


*


Este novo formato de relação das pessoas com as obras é evidentemente possível. 

Este novo formato de relação das pessoas com as obras poderá generalizar-se, e tornar-se mesmo, predominante. 

Acredito que em algumas vertentes artísticas assim acontecerá. Tornar-se-á absoluto.

Nessas áreas operativas desaparecerão os artistas. Ficarão as obras… estas… filhas de bits e bytes sem comoção. 

A emoção será depois conferida pelo utilizador… na “utilização” dos objectos artísticos. 

O entrosamento emotivo ocorrerá apenas a jusante.

Esta realidade terá aspectos encarados como muito positivos, claro. Serão essas vantagens que vão eventualmente consolidar esta realidade.

O acesso a imagens ilustrativas, vídeos e alinhamentos sonoros passará a estar disponível para todos os desprovidos de talentos criativos nessas áreas. 

Na perspectiva do utilizador final, esse facto representará um progresso imenso.

Para o indivíduo, toda essa disponibilidade custará zero, ou, terá um custo muito baixo. Interrogo-me no entanto sobre o valor da factura a pagar pelo colectivo… O que vamos nós perder enquanto espécie?

Não deixa de ser curioso que a produção artística, constituindo-se nas paredes cavernais da pré-história, como um dos aspectos que primeiro diferenciam a nossa espécie do resto da criação terrestre, se encontre agora, em resultado da evolução tecnológica dessa mesma espécie (a nossa), perante este dilema existencial. 

Teremos nós esgotado o potencial da arte enquanto recurso definidor da nossa espécie?



Friday, June 21, 2024

[ ABOUT Magazine nr. 9 _ Aventura ]

 


Estou muito grato à About Magazine pelo seu interesse no meu trabalho. 

A edição nr. 9 desta revista trimestral foi lançada a 17 de Junho, com o tema AVENTURA.

Este número dedica, muito generosamente, algumas páginas às minhas ilustrações… também elas pequenas aventuras de tinta preta sobre papel.

Os meus bonecos aparecem assim alinhados entre belíssimos textos e fotos, que nos transportam para universos tão abrangentes como a modernidade metropolitana das cidades mais cosmopolitas, ou, a beleza melancólica de construções fotográficas equiparáveis a quadros renascentistas. Entre um extremo e o outro, a paisagem é fantástica.

Muchas gracias ABOUT Mag ; )






Friday, May 10, 2024

[ Eça e a Verdade ]


 

As deambulações regulares de um jovem estudante da Faculdade de Belas Artes na baixa Lisboeta, incluíam passagens regulares na rua do Alecrim – ora subindo para o chiado, ora descendo para a ribeira, ora em passo apressado para as aulas, ora vagueando preguiçosamente para passar tempo.

Como Ricardo Reis, fui eu também, muito frequentemente, retido pela beleza magnética do conjunto escultórico de Eça e a Verdade

…e ali fiquei… admirando repetidamente.

Wednesday, January 31, 2024

[ Sísifo ]


POST SOUNDTRACK

Bird’s Teardrops || Estas Tonne feat. Peia || Ashland, Oregon 2018

 

Carregar uma carga pesadíssima, encosta acima. 
Querer desistir, e não poder. 
Ter como única opção, continuar… mesmo que, no horizonte do tempo se perspective apenas a exaustão, e a provável falência física do organismo. 
A história de Sísifo é essa, sendo que, a cada vez que o topo é alcançado, novamente a carga cede ao chamamento gritante da gravidade, e rola, encosta abaixo. Nada menos que uma tragédia para  um carregador já esgotado.
A ideia do recomeço do esforço previamente condenado ao fracasso, da repetição do ciclo, é devastadora.
Na história da humanidade, a repetição de avanços e recuos parece ser uma constante.
A sucessão de eventos bélicos configura uma onda de ciclo curto, à qual parecemos não conseguir fugir. 
Não passamos muito tempo sem as malditas guerras.
Quando parece que, enquanto espécie, encerrámos esse capítulo e estamos finalmente em ascensão a um novo patamar verdadeiramente civilizado, a carga que transportávamos encosta acima, cede também ao chamamento gritante da gravidade. 
Cá vamos, novamente…
.
Interrogo-me se não haverá também uma onda de ciclo longo… MUITO longo… 
Essa onda teria potencial para fazer desaparecer totalmente da face do planeta, a nossa memória civilizacional.
Não digo que nesse dilúvio, fosse eliminada a totalidade da nossa espécie. Apenas a memória colectiva do estado evolutivo máximo a que chegámos em cada inflexão da vaga.
Recomeçaríamos novamente, evoluindo do zero, Homens e Mulheres Sapiens, criando o fogo a partir da fricção de paus, MAS… rodeados de magníficos monumentos, herdados de um passado que não conseguíamos caracterizar, e inexplicáveis pelo nosso percurso conhecido.
Por mais uns milénios… empurrando a carga, nova e penosamente, encosta acima.
Como terá corrido a subida anterior? Teremos “também” falhado na solução para o colapso climático? Teremos “também” falhado na contenção e reversão da auto-infligida ameaça nuclear?


Friday, January 26, 2024

[ Leguminarium #3 ]


 

A COUVE

Na publicação deste blog relativa ao início da colecção a que chamei Leguminarium, a qual estou a desenvolver para a Maria Cidrão Delicatessen, caracterizei o carácter primordial da relação entre referentes orgânicos vegetais e o meu despertar para as potencialidades do desenho artístico.
Nesse texto referi a relevância dos trabalhos que fiz em torno das folhas e nervuras de uma couve portuguesa, na cadeira de DESENHO I, em Belas Artes.
O fascínio visual inspirado por essas formas permanece, e o contentamento com o resultado desses trabalhos iniciais trouxe-me por muito tempo com vontade de regressar ao tema, e de retomar a a exploração das suas possibilidades.
Na visita ao espaço museológico da Sagrada Família, em Barcelona, fiquei maravilhado com a maquete invertida que Antony Gaudi fez do seu projecto da futura catedral, na qual estudava e testava a geometria das linhas de força através de uma intrincada teia de pesos suspensos por cordéis.
No meu referente verde, talos e nervuras desta obra orgânica, são como essa teia de cordéis distribuidores das forças. As curvas e contracurvas das vilosidades das folhas, são como as cúpulas e abóbadas estruturantes na sustentação do peso, resultante do comprimento dos enormes planos de tectos/folhas-verdes.
Os requisitos estruturais destas dinâmicas de forças, dão origem a um desenho carregado de proeminências e depressões formais, repleto de sombras e cavidades obscurecidas.
Tudo isto originou então (na colecção da couve portuguesa), e origina agora (nesta couve lombarda), representações repletas de jogos de luz sombra, que se me afiguram, só por si, visualmente muito ricas.
Da minha estadia em Belas Artes até à actualidade, a experimentação com o uso da cor levou-me a eleger a utilização da cor digital, com a sua, para mim fascinante, total homogeneidade, como recurso cromático exclusivo.
A actual colecção encontra-se embebida nessa conjugação – desenho de alto contraste a preto sobre papel branco, com cor digital adicionada. A linguagem que uso para as minhas ilustrações.
A minha catedral de bio engenharia orgânica é então avivada com a aplicação de mantos cromáticos homogéneos, divididos em territórios bem delimitados de nuances autónomas de verde, nos quais sombras e brilhos aprofundam e afloram formas elaboradas.
A totalidade dos trabalhos estará visível no meu blog geminado, aqui ao lado (prazeressaias.blogspot.com), dedicado ao trabalho de desenho-como-um-fim, com informação de medidas, e noção de escala.
Para a divulgação deste trabalho em algumas plataformas, criei uma animação.
Dediquei-me novamente à composição de uma faixa musical para essa animação, e mais uma vez constato que essa fase do processo produz em mim o mesmo entusiasmo que encontro na composição do desenho.
Satisfação dupla e gratidão múltipla.
E agora… é hora de fazer a sopa.

Friday, January 19, 2024

[ Egoísta 76 _ Cartas para a Liberdade | 50 anos do 25 de Abril ]

 


A mais recente edição da Egoísta já anda por aí.

O tema deste número 76 é “Cartas para a Liberdade. 50 anos do 25 de Abril”

No arranque do trabalho de construção de uma qualquer edição com estrutura de livro (capa + miolo), um dos territórios pelos quais a minha mente começa de imediato a passarinhar, é, obviamente, o da capa. 

A tradução gráfica do conceito contido na formulação textual do tema (ou título), consiste num exercício que tem tanto de desafiante, quanto de entusiasmaste.

Neste caso, muito cedo no processo, (logo após a primeira conversa com a editora, Patrícia Reis), comecei a trabalhar mentalmente a ideia de associar a passagem do tempo (50 anos já deixam marcas no mais resistente dos seres vivos), ao mais forte símbolo da revolução que conduziu Portugal aos verdes campos da Liberdade e Democracia – O cravo vermelho.

Ambicionava eu, não só evidenciar claramente a passagem do tempo no dito símbolo, mas, mais do que isso, aludir ao sentido seguido por essa evolução.

Do verdejante campo de promessas viçosas dos primeiros meses da Liberdade recém-adquirida, até ao panorama sociopolítico actual, como haviam a passagem do tempo e as condições envolventes, orientado o crescimento dos cravos libertários. Como havíamos nós, cidadãos floristas, criadores de arranjos amanhados em canos de metralhadora, feito a jardinagem dos nossos canteiros, no decorrer destes 50 anos?

A transição de temáticas de muitas conversas “de café”, das questões inerentes às restrições das vontades do povo de pré-74, e da carência de então no que diz respeito a liberdades, recursos, bens de consumo…, para os temas em voga na sociedade desta última década, na qual a massificação e imediatismo da comunicação e do consumo vieram criar um conjunto de novas preocupações na mente do cidadão comum, não seria certamente alheia à evolução do posicionamento sociopolítico desses cidadãos. 

Com consequência no desenvolvimento das flores da Liberdade, as discussões focam-se agora mais em outros assuntos, que não os da autonomia na decisão do próprio destino, os das fronteiras da cidadania, os dos direitos (nossos e dos outros)… os da eventual ida forçada para a carnificina da guerra.

Com consequência no desenvolvimento das flores da Liberdade, algumas das questões que eram assunto, deixaram de o ser, constituindo-se agora para alguns sectores da sociedade, como uma chatice com a qual não vale a pena consumir o cérebro nem gastar palavras.

O meu processo mental baralhou e analisou então estas variáveis, e aparece com uma sugestão. Foi como consultar o chatGPTRodrigo e ler a solução: 

“O tema da passagem do tempo, enquanto fórmula para elaboração de uma solução gráfica, se considerada no contexto da botânica, e mais concretamente no universo das flores, deverá, dependendo da duração do período em causa, reflectir o desenrolar do ciclo de vida, morte e eventual decomposição do espécime tomado como referente. A introdução do factor de manuseamento humano, e, tendo em conta a perspectiva da preservação do espécime (eventualmente devido ao seu valor simbólico), tem com frequência como desenvolvimento, a promoção da  conservação do mesmo, através de secagem entre as páginas de um livro.”

Maravilha. Após analisar repetidamente a adequação desta solução, o meu entusiasmo com a mesma, mantinha-se inalterado. 

A conjugação da preservação da flor/símbolo com o universo dos livros tornava-a particularmente pertinente à utilização na Egoísta.

A materialização da minha ideia passaria então por uma primeira etapa óbvia: desencantar um molho de cravos vermelhos, algo que resolvi sem dificuldade através de uma visita à florista do bairro.

Era agora proprietário de um viçoso molho de cravos vermelhos, born and raised in… Marrocos. Como…??? 

Pois é… Em plena época de cravos (Agosto), parece que já não é fácil descobrir fornecedores nacionais para esta flor. Este aspecto soou-me a sacrilégio, estando em causa a evocação de um símbolo da conquista da Liberdade em Portugal. Mas, por outro lado… se a maioria das estatuetas de Nossa Senhora de Fátima disponíveis no mercado, são produzidas na China, estaremos então ainda dentro do domínio do aceitável. 

Passemos à secagem…

Algumas pesquisas no grande repositório do conhecimento humano chamado YouTube, tornaram-me rapidamente especialista em secagem de flores. Foi como proceder à conexão “wired pela nuca”, apresentada na série The Matrix, mas com uma velocidade de download ligeiramente mais lenta.

Contudo, as operações e métodos recém-aprendidos, iriam levar-me apenas à obtenção da preservação imaculada de uma flor.

Infelizmente não chegava. 

Infelizmente, por essa via, e com esse resultado, o processo evolutivo a que eu estaria a fazer alusão, teria conduzido as flores da Liberdade, a uma democracia informada, isenta do flagelo da abstenção, imune aos extremismos e à demagogia, em que todo e qualquer cidadão assumiria a sua obrigação de acompanhar os desenvolvimentos políticos do país, e, quando chamado a decidir, estaria habilitado a escolher com lucidez, validade e fundamento.

Infelizmente, por essa via, e com esse resultado, o processo evolutivo a que eu estaria a fazer alusão, teria conduzido a sociedade, a um panorama em que os órgãos de informação seriam sustentados directamente pela procura dessa informação por parte dos cidadãos (mantendo-se assim isentos), cidadãos esses que teriam por sua vez capacidade para poder direccionar uma muito pequena parte do seu rendimento para uma assinatura (por exemplo de um jornal generalista credível), e ainda assim ter comida na mesa, e um tecto ao qual pudessem chamar seu, sabendo que o poderiam manter pelo tempo necessário à criação de descendência, com estabilidade. A qualidade da democracia e a preservação das suas liberdades depende também, directamente, da observação dos mínimos de qualidade de vida dos cidadãos que a compõem.

Mas a realidade actual não é esta.

A minha equação não estava ainda completa.

Voltei então ao ChatGPTRodrigo.

Introduzi as novas variáveis, e a resposta não se fez esperar.

“Nos processos de preservação e mumificação da matéria orgânica, e em particular nos que envolvem processos de secagem por passagem do tempo, existe um factor possuidor de potencial para comprometer de forma catastrófica a totalidade do método – a prevalência de humidade.

O correcto controlo desta variável poderá trazer ao processo aspectos de degradação controlada dos espécimes, de forma a condicionar a sua aparência e integridade. Uma redução da quantidade do sal de natrão poderá ser a via para esse fim.”

Novamente fantástico. Teria obviamente que filtrar da resposta a confusão nas referências e a mistura de contextos (próprias destas ferramentas e resultados por si produzidos), mas… a base estava lá.

Procedi então à adaptação do meu plano. Iria reduzir o grau de absorção do papel em contacto directo com as minhas flores da liberdade, e substituir as páginas do livro (também absorventes), por placas de acrílico em sanduíche (materiais isolantes). No meu modelo experimental esta alteração iria aumentar a humidade no processo de secagem, introduzindo aspectos visíveis de alguma degradação das flores.

Preparado todo este aparato no chão do hall dos quartos, trancámos a casa, e fomos de férias.

Não tendo (infelizmente) a possibilidade de cumprir o prazo de 40 dias prescrito pelos antigos egípcios, nem sequer o de 3 a 4 semanas recomendado no Youtube para a secagem de flores em livros, a coisa teve que se dar em apenas duas semanas.

À chegada, retirados os pesos de cima das placas de acrílico… Removidos os papéis absorventes como se de gazes coladas a feridas purulentas se tratasse… aí estavam as minhas flores semi-secas. 

Em algumas delas o tão desejado… bolor.

Sucesso.

As flores da Liberdade, cujo valor atribuído pelos jardineiros de 1974, seria considerado como precioso e digno de preservação entre as páginas dos seus livros mais importantes, encontram-se por descuido de bonomia, manchadas pelo bolor das más práticas de conservação. 

Para a capa da Egoísta, a construção deveria ser constituída por uma solução visual evidentemente elaborada a nível gráfico, por oposição à simplicidade da utilização de uma fotografia pura e simples do meu ramo de cravos semi secos. 

Na construção da proposta, procedi assim ao isolamento de uma das flores menos afectadas por manchas de bolor, e, em seguida, tratei-a digitalmente para a tornar imediatamente identificável como um cravo seco. A rápida apreensão do conceito por parte do leitor dependia do imediatismo dessa descodificação. Neste primeiro plano, a evidência da elaboração gráfica desenvolve-se através da sobreposição da flor a um fundo homogéneo impresso em Pantone (aplicação integral e homógenea de uma cor determinada com grande excatidão), e da adição de relevo e verniz, limitados à área do cravo.

O primeiro momento de leitura é este.

Num segundo momento, ao abrir a capa, e viajando até ao verso de capa, chega-se então a uma imagem que exibe vários cravos secos, e, em alguns casos, manchados de bolor.

As flores da Liberdade simbolizam valores que nos são preciosos e dos quais não podemos abdicar. Esses valores impõem-se como alvos de preservação para o futuro. Nestes 50 anos conservámos essas flores entre as páginas de um, livro especial… a constituição. Há ainda muito caminho por fazer, enquanto colectivo, e especialmente enquanto cidadãos singulares. Afinal o rumo do colectivo faz-se da soma das sendas individuais.

Mas as manchas estão lá, nas frágeis pétalas e caules das flores da Liberdade.

Como é amplamente sabido, o bolor, sendo constituído por metrópoles de fungos em crescimento constante, se não for energicamente combatido, alastra-se… podendo vencer.

O futuro é por nós desenhado a cada dia que passa. Veremos como corre.