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Wednesday, December 27, 2023

Tuesday, December 5, 2023

[ Carta a Israel ]

 


… como é estranha esta parte do mundo, três vezes santa.

Para um visitante externo às “civilizações” terrestres, pareceria ser este, certamente, um local agraciado com bênçãos em triplicado…

Pareceria certamente que, dos enormes excertos comuns a estas três narrativas, poderia apenas emanar grande entendimento e compreensão… mãos dadas para o futuro.

Puro engano… O homem-macaco dá aqui especiais largas ao seu gosto por sangue dos seus irmãos, e ali gosta de colhê-lo em taças de cacos colados… apanhados nos escombros.

Há coisa de 25 ou 30 anos, dirigi uma carta ao embaixador de Israel em Portugal.

Missiva à moda antiga, circulando em papel assinado à mão e despachada em envelope selado.

As linhas que lhe dirigi espraiavam a minha perplexidade com o desempenho das tropas israelitas nos postos de controlo de acesso à Faixa de Gaza.

Tinha eu assistido a um documentário da BBC, sobre a actividade diária nos referidos postos de controlo.

A entrada ou saída da faixa de Gaza era gerida pelos soldados israelitas, através de apertados controlos nestes checkpoints de acesso.

Do grande número de pessoas que diariamente procurava percorrer a passagem entre estes dois mundos, a larga maioria era (e ainda hoje será) palestiniana, claro. Essa maioria tenta fazer esse percurso essencialmente por motivos de trabalho ou familiares.

O passo lento e as inúmeras paragens prolongadas são justificados pelo desenrolar dos vários procedimentos de segurança, dos quais os soldados comtroladores conpreensivelmente não abdicam. Verificação de documentos, perguntas sobre a natureza da deslocação pretendida, ou sobre as relações com as pessoas com as quais o pretendente se vai encontrar.

Até aqui tudo é fácil de perceber.

O tema assume contornos revoltantes quando se revela a postura e o tom adoptado pelos jovens soldados, perante os alvos diários do seu controlo.

Foi esse o móbil da minha carta. 

Na minha leitura das imagens exibidas, era tão imprópria e desadequada a atitude ostentada pelos soldados israelitas que não pude deixar de a associar à imaturidade da sua visível tenra idade, muito embora estivesse também, e principalmente, ligada a uma evidente deficiência na sua formação moral enquanto meros cidadãos.

No texto que elaborei, a dada altura, referi que o comportamento exibido pelos jovens soldados me recordava os episódios em que eu, enquanto criança, era esporadicamente abordado, nos meus percursos casa-escola/escola-casa, por pequenos gangs de crianças e/ou adolescentes (visivelmente pertencentes a franjas desfavorecidas da sociedade), empoderados pelo número de elementos que compunham esses grupos. Vagueavam pelas ruas da cidade, usando o tal poder dos números, para esmagar o ego e, esvair de amor próprio as crianças e/ou adolescentes tresmalhados com os quais se cruzavam, através do roubo, da injúria, da humilhação, ou da pura e simples agressão física.

Era essa postura que eu reconhecia na forma como os (demasiado) jovens soldados israelitas abordavam, questionavam e inspecionavam homens e mulheres, novos e velhos, cidadãos palestinianos, que tentavam atravessar os postos de controlo da Faixa de Gaza de então.

Pus-me no lugar dessa gente. Imaginei a minha mãe ou uma irmã, ou um dos meus avós, a serem tratados assim, diariamente, à minha frente, pelos imaturos, irresponsáveis e impreparados representantes de um estado opressor.

Escrevi então ao Embaixador de Israel em Portugal, expressando o meu choque com a situação que acabava de conhecer, dizendo que me parecia evidente a responsabilidade dessa imaturidade e falta de formação moral, aparentemente orientadora destas interacções, na criação e desenvolvimento de um sentimento descontrolado de revolta, e na geração de emoções que uma vez surgidas na alma de quem já nada tem a perder, facilmente poderiam ser direccionadas para acções negativas e profundamente condenáveis (estava eu longe de imaginar situaçãoes extremas como as que ocorreram dia 7 de Outubro passado).

Desde a minha carta, a qual possivelmente nem chegou às mãos do seu destinatário final, quantas almas boas terão, por estes e outros mecanismos ainda mais violentes e injustos, atravessado a fronteira da bondade, abandonando esse território sem retorno?

Na resposta israelita aos horrores de 7 de Outubro de 2023, as suas acções militares já custaram a vida a milhares de civis palestinianos, através de abordagens bélicas que parecem não ter em conta o valor real desse custo, e a desproporção para o resultado obtido. O seu carácter repetitivo parece indiciar apenas uma coisa – o mais profundo desprezo pelo valor de cada vida que compõe o povo palestiniano.

Segundo notícia do jornal Público de 3 de Dezembro: 

“Os números são de uma dimensão esmagadora: mais de 15 mil mortos (incluindo 6000 crianças e 4000 mulheres); 6000 bombas largadas só durante os cinco primeiros dias da guerra (com um peso de cerca de 4000 toneladas); 15 mil alvos atacados nos primeiros 35 dias”. 

(Excerto da notícia do Jornal Público, edição online de 03 de Dezembro 2023, por Sofia Lorena, com actualização às 21h12). 


Israel pretende eliminar rapidamente os perpetradores dos terríveis ataques terroristas ocorridos a 7 de Outubro. 

No contexto destas acções, interrogo-me sobre quantos novos futuros terroristas terá já Israel feito nascer…


Passados todos estes anos a minha carta continua sem resposta.