Sunday, April 13, 2014

Sunday, March 30, 2014

[ Gato voador ]


Sim. É de facto um gato de barbatanas azuis… a "nadar" no vazio do ar… bem próximo do tecto do corredor da casa.
A pequena acha estranho…

Sunday, March 23, 2014

[ Liberdade ]




Ai que prazer
Não cumprir um dever
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada, 
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,

E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Fernando Pessoa, “Liberdade”, in Amélia Pinto Pais,
Fernando Pessoa, O menino de sua mãe, Areal


Identificação imediata, foi o que senti ao ler este poema do colega do meu pai (como ele meu pai frequentemente diz).
O senhor Pessoa colega do senhor Saias.
Ao rever-me assim nas ideias do senhor Pessoa, tão fácilmente centradas nas manifestações naturais, foi também natural representá-lo de papo para o ar, numa postura contemplativa do vazio do céu, cujo azul aparece levemente reflectido nas lentes dos seus frágeis óculos. Comportamento que me é muito familiar…

Entretanto, deve-se o ritmo brando das mais recentes publicações neste blogg a um acontecimento inesperado sobre o qual se impõe fazer um alerta aos caridosos leitores:

"… Gravai os vossos backups importantes, pelo menos, em RAID 1…"

A frase está entre aspas, não por não ser da minha autoria, mas como convite a que seja tida como algo com a importância de um mandamento digno de ser afixado na parede.
Para quem não sabe o que é RAID 1 aqui vai uma breve e ilucidativa contextualização.
Há coisa de 4 ou 5 anos decidi investir na compra de um disco externo para proceder ao armazenamento do meu trabalho. Crente de que esta medida seria uma forma segura (pura ilusão) de preservar os (para mim) valiosos ficheiros, foi com espanto que há coisa de um mês e meio fui surpreendido por um comportamento estranho do dito aparelho, sintomático do seu colapso, que de um momento para o outro começou a produzir um ruído semelhante a uma máquina de pipocas a funcionar em câmara lenta. 
De um momento para o outro todo o material ali guardado estava refém desta caixa preta barulhenta, muribunda e agora inacessível.
A boa vontade e persistência de uma amigo, profissional na matéria, conseguiu resuscitar o património ilustrado, mas a verdade é que não ganhei para o susto.
Decidi então dar o grande passo e perder o "amor" a uma quantia tal, que ao sair da minha conta insistiu em me acenar com a sua potencial aplicação numa série de outras utilizações bem mais agradáveis e prazerosas… sou agora detentor de um sistema de backup que executa a duplicação automática da informação armazenada, através de dois discos ligados em espelho, ou seja, RAID 1.
Se um destes ovnis morrer ao meu serviço terei sempre a possibilidade de recorrer ao património genético do seu irmão gémeo, armazenado então em espelho a dois cêntimetros de distância.
O ritmo lento de publicações neste blogg deveu-se então à demora do processo de ressureição da informação e à sua transposição para uma plataforma um pouco mais segura.
Só agora todos estes bits estão de volta ao meu atelier.


Sunday, February 23, 2014

[ O rapaz que tinha um nariz do tamanho de um chouriço ]


"…Custou-me muito nascer. Estava tão bem desnascido, aconchegado, sem ter nada que fazer. Mas tinha de ser. Foi então que apareceu a fada. Tinha duas asas fininhas que a mantinham no ar e trazia uma saia cor-de-rosa, muito rodada, que já não se usava. Não foi convidada mas apareceu. Foi o que lhe deu. Pousou a mão na minha testa e disse: – A vida deste rapaz vai dar para o torto. – Não diga isso – pediu a minha mãe, muito aflita. – Digo, pois – voltou a fada. – Ele terá um nariz do tamanho de um chouriço. Por isso...
– E foi mesmo isso que aconteceu. O tempo ia passando e o meu nariz crescia mais depressa do que eu. Quando parei de crescer tinha um nariz a perder de vista, mas continuava otimista. Um nariz do tamanho de um chouriço? Podia ser pior, dizia eu. E agora pergunto: não era pior se fosse do tamanho de um presunto?…"

Álvaro Magalhães, O Senhor do seu nariz e outras histórias