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Saturday, May 18, 2013

[ Os lobos ]


Há muito que alimento a ideia de vir a dar vida a um destes instantâneos de realidade imaginada… Ter a bonecada a mexer gerando interacção entre os vários elementos da imagem…
Neste trabalho fiquei um bocadinho mais perto de alcançar esse objectivo. A YDreams concebeu para um dos seus clientes um conjunto de animações, construídas a partir de ilustrações, cada uma delas estruturada em vários planos. Esses planos são depois movimentados entre si criando a animação final. Por vezes há também elementos que aparecem e desaparecem construindo uma micro narrativa.
O lisonjeiro convite de elaboração das ilustrações foi-me dirigido, e eu respondi com redobrado gozo… tratava-se não só de ilustrar, como ainda por cima, de trabalhar com algumas imagens de enquadramentos naturais da serra da estrela… em algumas dessas imagens (como a que está aqui por cima) aparecem bosques outonais que me recordaram as tardes de novembro que passamos nos soutos das encostas íngremes da serra, a apanhar castanhas de ouriços selvagens, abertos com o canivete e com a ajuda de um pau apanhado do chão, para descobrir, a cada vez, dois ou três lustrosos frutos. As mãos estão geladas e o ar está frio. A sensação é tão boa que de vez em quando paro, agacho-me encostado a uma árvore carregada de musgo húmido, e contemplo o cenário envolvente…
O reultado da animação pode ser visto numa deslocação à casa museu dos guardas florestais em Manteigas.

Sunday, May 5, 2013

[ O frade ]




Começou o Frade a dar lição de esgrima com a espada e broquel, que eram de esgrimir, e diz desta maneira:


Fra.
Pera sempre contra-sus!
Um fendente – ora, sus! –:
esta é a primeira levada.
Alto! Levantai a espada!
Metei o diabo na cruz,
como o eu agora pus!
Sa’ coa espada rasgada,
e que fique anteparada!
Talho largo, e um revés;
e logo colher os pés,
que todo o al não é nada!

Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno


A dança bélica do Frade é composta por vários movimentos tácticos próprios da luta com espada (contra-sus, fendente, sus, talho largo, revés…), encenados ao longo de uma movimentação que se desenrola pelo palco. Esta cena levou-me a representar o frade-guerreiro em algumas dessas posições técnicas, e com diferentes graus de proximidade/afastamento, na tentativa de transmitir a noção de movimento.

Saturday, May 4, 2013

[ O onzeneiro ]



"Vem um Onzeneiro, e pergunta ao Arrais do Inferno, dizendo:

Onz. 
Pera onde caminhais?
Dia. 
Oh, que má-hora venhais,
onzeneiro meu parente!
Como tardastes vós tanto?"

Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno


Por vezes a integração da ilustração no layout obriga a soluções de compromisso que requerem um pouco mais de ponderação. Aqui, a figura do diabo, bem como o fundo da ilustração (a barca em plano de fundo) são cortados a um determinado nível pela mancha de texto, mas a figura do onzeneiro prolonga-se abaixo desse nível, como se estivesse destacada do resto da ilustração. Esta solução, embora confira mais profundidade ao desenho, devido ao acentuar da diferença de planos, contraria aquilo que foi o meu método geral de concepção dos desenhos. Esse método consistia em desenhar elementos cujos recortes exteriores se adaptassem às manchas já presentes no layout já existente (textos, títulos, notas etc.) de forma a que uns e outros nunca se interceptassem. … Um pouco como se todos os elementos fizessem parte de uma realidade virtual, nunca se entrecortando.
À direita está o anjo e a sua barca… de difícil acesso diga-se.

Friday, April 26, 2013

[ Auto da Barca do Inferno – Cena V _ O sapateiro ]


Grande parte do trabalho para o "Diálogos 9" da Porto Editora é dedicada ao Auto da Barca do Inferno, Escrito por Gil Vicente, representado pela primeira vez em 1517.
Ao reler os textos que compõem a obra voltei a constatar como muita desta sátira parece talhada em função do panorama dos dias de hoje.
Na actualidade das suas obras de crítica social, ao enorme talento de autores como Gil Vicente e Eça de Queiroz, alia-se a efectiva estagnação ética e conportamental da sociedade analisada de forma transversal.
Esta ilustração é uma das que me deixaram mais satisfeito. Fiquei especialmente contente com o tratamento para o personagem d'O Diabo, (o capeta, o tinhoso, o cornudo, o belzebu), capitão e timoneiro do batel infernal.
Ao considerar eventuais características formais para representar esta figura houve uma imagem que imediatamente tomou conta da minha imaginação… a dos caretos transmontanos… figuras da cultura popular portuguesa que sempre me fascinaram.
O seu carácter assustador e a atitude persecutória… as máscaras misteriosas e intimidatórias… as cores vivas, como se de animais exóticos se tratasse.
À sua frente o sapateiro intimidado mas ao mesmo tempo zeloso pelo que é seu… condicionado tanto pelo medo como pelo sentimento de propriedade.

[ O velho avarento ]


(…)
"Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro dou eu por isso."

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Opera Omnia

Saturday, April 13, 2013

[ Sophia ]

A minha proposta de capa para o Diálogos 9, livro escolar de português da Porto Editora, continha pequenas imagens representativas de alguns autores da língua portuguesa. Entre eles está Sophia de Mello Breyner Andresen. Este esboço foi depois complementado com cor e colocado no conjunto final, mas, devido à articulação com os restantes elementos gráficos do layout (a publicar num post posterior) acabou por ficar escondido quase na totalidade.

[ o louco ]


… olhar para o espaço em branco sabendo que ali terá que entrar "o louco" do Auto da Barca do Inferno… fazer das reentrâncias e saliências do texto, o molde das articulações do seu movimento… deixar a mancha disponível na página fazer a sua sugestão…
Gosto deste jogo durante o qual olho imóvel para uma folha impressa, sem pestanejar. Quem me vir dirá que não estou cá. Como um computador, a minha mente analisa hipóteses projectando-as uma após a outra no espaço vazio, …ajusta pormenores, molda elementos.
Quando estiver a desenhar irei inclinar a cabeça para o lado e cemicerrar os olhos, chegarei mesmo a fazer "caretas" como se isso influenciasse a caneta na obtenção da expressão pretendida. Neste caso particular é bem possível que tenha chegado a contorcer a mão, …do louco.
Gosto deste processo.