Fernando Pessoa, carta a Adolfo Casais Monteiro, 13 de janeiro de 1935
Monday, May 29, 2023
[ Alberto Caeiro ]
Monday, May 15, 2023
[ Reflexos de pessoas ]
Quem via Pessoa, ao contemplar os reflexos da sua fisionomia?
Que entidade(s) era(m) essa(s) que se lhe apresentava(m) do lado de lá da superfície reflectora?
Como era grande o potencial revelador dessa superfície… E que estranha magia operava…
No ano de 2022 da graça do Senhor, ao contemplarmos algumas das mágicas superfícies a que chamamos ecrãs, outro tipo de magias passou a operar-se. Outro tipo de alquimia se configurou.
A partir desse ano, passou a ser possível relacionarmo-nos com uma nova entidade intangível chamada “Inteligência artificial”, vulgo AI (Artificial Inteligence).
Boa parte dessa interacção acontece, desde o final desse ano, por intermédio de uma ferramenta alquimica denominada CHAT GPT4, recurso interactivo disponibilizado pela Microsoft… actualmente a cada vez mais pessoas, de um número crescente de estratos etários, em cada vez mais dispositivos.
A concorrência não tem critérios diferentes. A Google seguir-lhe-á os passos, orientada claro, pelo objectivo de não ficar para trás na corrida.
Essa corrida e seus objectivos, são por si só legítimos no contexto das sociedades da actualidade.
Contudo, as consequências desse percurso, e principalmente da velocidade a que o mesmo está a ser percorrido, assumem contornos altamente preocupantes.
Em Março deste 2023, foi divulgada a existência de uma petição, assinada por uma lista de estudiosos e promotores desta realidade tecnológica (entre os quais Elon Musk), pedindo a suspensão do desenvolvimento de aplicações que recorram a AI, para permitir a discussão, e posterior regulação legal, dos desenvolvimentos futuros.
Um dos progenitores da AI, de seu nome Geoffrey Hinton, em entrevista datada desse mesmo mês (Março de 2023), afirma-se convicto de que a revolução que a AI vai provocar na vida humana é comparável à revolução industrial, ou à introdução da electricidade nas dinâmicas operativas da nossas sociedades. Por outro lado afirma ser imprevisível o nível de reais consequências dessa revolução.
Na verdade, nem Geoffrey Hinton, nem Elon Musk, nem os optimistas representantes da Microsoft, ou da empresa OPEN AI (criadora do CHAT GPT4), podem prever a verdadeira dimensão do abalo. Seria o mesmo que lançarmo-nos a tentar caracterizar a personalidade adulta de um recém-nascido.
Ela vai desenvolver-se, e evoluir autonomamente, e, só a passagem do tempo revelará as suas características, as quais, ainda assim, permanecerão, no caso AI, em todas as fases da sua evolução, em transformação contínua, devido à infinitude do imparável processo da sua auto-instrução.
Haverá no entanto uma diferença – A AI é desprovida de declínio físico, e a morte só lhe virá por meio de um “apagão eléctrico” generalizado e definitivo.
Num inquérito denominado “The 2022 Expert Survey on Progress in AI”, promovido por Tristan Harris e Max Tegmark, de um universo de 162 investigadores na área, 81 (metade) acreditam que existe um risco na ordem dos 10%, de que a humanidade se extinga por incapacidade de regular a AI e suas implicações.
A afirmação, de tão chocante, afigura-se inverosímil.
Numa apresentação promovida pelo “Center for Humane Technology”, em Março deste ano, “ intitulada “The A.I. Dilemma”, apresentada pelo referido Tristan Harris, e por Aza Raskin, é sugerida a seguinte analogia em forma de pergunta aos espectadores: “entrariam num avião em relação ao qual 50% dos engenheiros aeronáuticos ligados à sua construção, dissessem haver uma probabilidade de 10% de colapso tecnológico em vôo?”
Soa a ridiculamente alarmista… Mas dá que pensar.
O também já referido Geoffrey Hinton, progenitor da AI, demitiu-se recentemente do seu cargo na Google, para poder denunciar sem conflitos de interesses, os perigos da implantação e desenvolvimento da AI.
Parece que estamos a ler as primeiras páginas de um enredo de ficção científica… a desenrolar-se agora… no nosso dia a dia.
Assim, à primeira vista, face aos desenvolvimentos apresentados por ferramentas como o CHAT GPT4, DALL·E 2, etc. parece haver campo aberto para a instalação de um certo entorpecimento intelectual, advindo do potencial para criação de conteúdos e construções de texto ou imagem, narrativas e conceptuais, disponível nestas ferramentas. A sua aplicabilidade estende-se pela composição de notícias, livros, resumos, críticas, cartas, emails, trabalhos escolares etc. A lista é potencialmente tão longa quanto a das variantes de composição escrita, fotográfica e ilustrada, possível de realizar pela criatividade da nossa espécie.
Assim, à primeira vista, escritores, jornalistas, fotógrafos, artistas visuais, ilustradores, entre tantas outras actividades, verão o seu volume de trabalho reduzido.
Abre-se caminho para um novo tipo de ativismo, promovido e levado a cabo por quem reconhece a perda para a humanidade, advinda desta transformação.
As alterações no panorama cultural serão enormes. Preparemo-nos.
A apetência/exigência por, e para, conteúdos gerados por pessoas, tornar-se-á estratificante na sociedade, e esse tipo de conteúdos merecerá carácter distintivo.
Creio que vamos assistir à criação de selos, ou marcas distintivas, atestando o carácter humano da geração de conteúdos. Um pouco como vemos hoje nos selos de “produto biológico certificado” associados visualmente aos produtos agrícolas gerados de forma orgânica.
Será primeiramente do lado dos compradores de conteúdos que haverá margem para ativismo. Actores vitais na estruturação das actividades que recorrem à criatividade (edição, publicação, promoção, etc), serão estes os decisores das modalidades de geração desses conteúdos a contratar.
Haverá também lugar ao posicionamento consciente de uma parte do público sobre esta temática, e como tal, margem também para um grau de exigência relacionado com esta questão, enquanto consumidores finais desses conteúdos..
Em todas as grandes transições tecnológicas houve defensores acérrimos, bem como críticos ferozes desses processos.
Em relação à AI não será diferente.
O que parece no entanto preocupar muitas das vozes que actualmente sobre este tema se fazem ouvir, é o ritmo da mudança, e a total imponderabilidade do panorama resultante dessa mesma mudança.
Aceleramos descontroladamente rumo ao alto de uma lomba, sem saber o que nos espera do lado de lá.
Os perigos que facilmente se avistam exigem regulação por instâncias superiores, e a gravidade desses perigos parece obrigar (mais tarde ou mais cedo), à criação dessas regras, desejavelmente a montante da ocorrência de problemas.
Se analisarmos a forma como normalmente os processos reguladores se dão, constatamos que, regra geral, eles são reactivos à ocorrência dos problemas resultantes da novidade.
Neste caso, se assim for, as consequências poderão ser demasiado graves.
O leque de possibilidades para utilização positiva destas tecnologias é no entanto imenso… e como tal… a mudança é, e deseja-se (depois de preventivamente regulada) imparável.
A capacidade da AI para análise de dados, e posterior sugestão de desenvolvimentos consequentes, baseada nessa análise, é impressionante, e constitui-se como uma ferramenta impossível de descartar.
É enorme o leque de actividades que poderão beneficiar das aplicações destas tecnologias. A nível científico, médico, jurídico, empresarial, policial, criativo…
Contudo, é também evidente que este aumento exponencial das capacidades de geração autónoma, análise e processamento de dados vão originar taxas de desemprego nunca antes vistas.
Da mesma forma que a proliferação de postos de auto check-out em grandes superfícies comerciais (caixas de pagamento self-service), origina a dispensa de um número equivalente de operadores de caixa, também o alastramento das ferramentas de AI originará a dispensa de colaboradores de entidades geradoras de conteúdos, e de processamento ou tratamento de dados.
Nas actividades em que actualmente existe défice de fluidez operativa, este aumento de capacidade das máquinas será muito bem-vindo.
Em muitas outras áreas, o total da diminuição de necessidade de operação humana… será uma calamidade.
Socialmente, os governos enfrentarão a muito curto prazo, enormes desafios. Na primeira linha de preocupações estará a questão da atribuição de rendimento, independentemente da existência de trabalho, ou seja subsídios.
O número de pessoas para as quais pura e simplesmente não existirá actividade produtiva remunerada disponível, vai crescer, e será necessário financiá-las (para que se sustentem), e ainda, mantê-las activas e ocupadas, estimulando interesses pessoais construtivos e positivos, para que não se percam na loucura do despropósito existencial.
Para tal serão possivelmente necessários mais impostos, eventualmente incidentes sobre a aplicação de tecnologias geradoras de desemprego, e muito, muito… debate político, para aceitar e acomodar tudo isto.
Outro aspecto que é muito focado no debate sobre a AI é o potencial para geração de conteúdo desinformativo.
A geração de texto e imagem com características que inspiram no leitor legitimidade e credibilidade, vai permitir a criação de “Fake-news” a um ritmo alucinante.
Há já quem tenha proclamado que as eleições americanas de 2024 serão as últimas nas quais o protagonismo será predominantemente humano.
Por outro lado, a gigantesca capacidade de análise de dados das ferramentas de AI, também aparenta ter capacidade para efectuar “fact-checking” a um nível de eficiência muito levante… o que pode equilibrar um pouco os pratos dessa balança.
Como se comportarão as democracias quando sujeitas às ondas deste trerramoto?
A mudança está aí, e continuará a acontecer. A ferramenta de AI da google, denominada “BARD” está em vias de se tornar acessível aos utilizadores, dando assim continuidade aos avanços na área, por via da concorrência.
A acima referida petição assinada por Musk, e notáveis do universo AI, pede apenas uma pausa no desenvolvimento, para que haja tempo para debater e regular, antes da ocorrência de efeitos indesejados para as sociedades humanas.
É no entanto pouco provável que o seu pedido seja ouvido.
Se Pessoa vivesse tudo isto, interrogo-me sobre que características teriam as entidades que lhe seriam devolvidas pelas superfícies refletoras.
Monday, April 24, 2023
[ Ilustrando livros escolares ]
Monday, February 20, 2023
[ Por antítese ]
POR ANTÍTESE
Friday, January 6, 2023
[ Egoísta MARIA ]
Por algum estranho desígnio, ando já há algum tempo adepto de criar também a música para as minhas animações… Estou especialmente satisfeito com o resultado desta. É bom sentir que, à semelhança do que sucede com alguns desenhos, sou apenas veículo… em vez de autor. Aqui, foi esse o caso.
… muito, muito grato… a Maria.
Friday, December 30, 2022
Boas Festas 22/23
A mudança de ano é forçosamente tempo de balanço.
A bordo deste planeta pintou-se a manta, em vários aspectos, ao longo destes últimos doze meses.
Alguns tópicos, previamente requerentes de atenção urgente, no que diz respeito a impedir que esta barca (arca) se afunde, continuaram a ser ignorados, ou foram até integralmente esquecidos.
Se o panorama pandémico da COVID 19 nos parece agora já mais leve, e de certo modo distante, e o nosso dia-a-dia é hoje mais suportável, afigura-se-me também como já evidente, que, a esperança de que, do mundo isolado em casa renascessem sociedades mais solidárias, e a humanidade subisse três degraus de uma só vez, era algo sem fundamento sólido.
… Não, não ficou tudo bem… Longe disso.
A tão falada oportunidade de um novo começo não foi aproveitada, e em vários aspectos estamos hoje mais próximos de um epílogo.
As barbaridades das guerras, das quais nós, homem-macaco, somos tão adeptos, e das quais o fundo auge está ainda tão presente (através do testemunho vivo de alguns poucos sobreviventes da II GM), estão de volta ao mundo civilizado. São algo recorrente no nosso percurso civilizacional, e com elas, alguns de nós resolvem desde as querelas de trânsito às grandes discordâncias político-estratégicas…
Alguém não estudou a história como devia… Alguém tem pedras no lugar de alguns órgãos vitais (coração)… e não é só na Rússia.
Os encontrões da, e à, China, sobre Taiwan e Hong Kong, e sobre o domínio nos mares do Sul, resultam em perigosas medições de forças que tão facilmente podem acabar mal.
As infindáveis vagas de imigração precária, frequentemente viagens pagas para a morte, feitas nas condições de conhecimento geral, continuam a encher campos de miséria… O que é feito de Lesbos, e porque desapareceu dos telejornais?
Mas nem tudo foi mau. O extremismo de direita levou um chuto com a queda de Bolsonaro, e o pesadelo Trumpista está agora bem mais longe da possibilidade de regresso ao cargo político mais importante do mundo, embora por motivos muito mais devidos à sua própria brutalidade mental do que propriamente à lucidez eleitoral do povo americano.
No último trimestre do ano, o precioso activismo climático mostrou-nos sinais de vitalidade, embora revestido de um radicalismo sócio-cultural que importa analisar… individual, social e politicamente, na medida em que traduz o desespero de gerações cujas legítimas aspirações a um futuro digno e sustentável se encontram seriamente ameaçadas de frustração. Para todos nós o tempo é curto. Para os mais novos de nós, os seus filhos poderão não ter barca (arca) para navegar. O objectivo de um 1,5° C já foi abandonado, e a lista de "perdas" que isso implica é já assustadora.
Os fenómenos extremos sucedem-se mundo fora… em catadupa… Mas raios, este foi ano de mundial… quem é que quer saber do resto?…
Por cá, as assinaturas digitais de alguns jornais credíveis aumentaram. Mais informação, significa directamente mais qualidade nos votos. Há margem para a esperança.
Mas este… é só um blog de ilustração.
Vou voltar à pintura dos pinóquios.
Tuesday, September 27, 2022
[ Leguminarium ]
O florescimento da perspectiva artística do meu percurso de desenho, foi adubado pela professora/pintora Luísa Arruda, durante a minha frequência do primeiro ano em Belas Artes.
No decurso daquelas aulas, na galeria abóbadada, iluminada pela luz que entrava lateralmente através das grandes janelas do antigo Convento de São Francisco, a minha visão do que o Desenho podia ser, mudou.
Mas essa mudança era esperada, desejável, e, própria da transição do ensino secundário para o ensino superior artístico. Para essa mudança muito contribuiu também a enorme torrente de estímulos, proveniente de professores, programas, experiências, e, colegas.
O contacto diário com o trabalho de enorme qualidade, produzido por alguns dos meus colegas de então, constituía de facto, só por si, um estímulo intenso. O acompanhamento da evolução de tantos trabalhos diferentes, nas várias vertentes de formação, era verdadeiramente causador de ampliação de horizontes.
Perante um determinado enunciado, a nossa perspectiva pessoal era direccionada para o desenvolvimento, e posterior defesa convicta, de um determinado percurso/solução. Nos dias em que decorriam as avaliações, essa perspectiva, que até aí nos parecera algo única, ou pelo menos a melhor das que havíamos equacionado, era então alinhada lado a lado, com várias dezenas de outras soluções, muitas das quais, com melhores respostas para os problemas com que nos havíamos deparado na realização dos trabalhos.
Voltando às aulas da galeria que ladeava o grande pátio interior do antigo convento…
Aí se materializavam no cavalete à minha frente ancorado, os dinâmicos e tortuosos exercícios da criatividade, arquitectados pela minha mente, ao longo dos processos digestivos de tantas e tantas ideias.
O programa de DESENHO I, desenvolvia-se, com a orientação da nossa fantástica professora, em torno da escolha livre de referentes, sobre os quais iria o aluno trabalhando, durante períodos de tempo de alguns meses.
Nas deambulações e pesquisas por um objecto propiciador da construção de desenhos interessantes, foi então a minha atenção cativada pelas formas orgânicas encontradas nas visitas frequentes ao antigo mercado da ribeira. Por entre a aquisição de sacadas de frutos para consumo na hora, o meu olhar foi cativado pela beleza orgânica de longos ossos descarnados, abandonados na zona dos talhos, em alguidares displicentemente pousados no chão. A minha vontade de aquisição desses "referentes" suscitou surpresa nos talhantes.
Essa série de desenhos, veio a originar os mais gratificantes e motivadores comentários, alguma vez por mim recebidos numa avaliação escolar. Um desses desenhos, o qual considero o nr 1 do meu percurso relevante, encontra-se hoje à entrada de nossa casa, recebendo todos aqueles a quem abrimos a porta. Valeu-me um… "Isto é um bom desenho em qualquer parte do mundo…" – ganhei o dia, a semana e o mês, ao ser o destinatário dessa frase.
Esta linha conceptual originou também os meus desenhos em grande formato, de crânios e mandíbulas de borrego, desenhados com sangue, e, num outro momento, algumas representações de belíssimas couves portuguesas, estando eu clara e justificadamente fascinado com o seu intrincado jogo de folhas e nervuras, cujas representações ainda hoje me orgulham bastante. Um desses desenhos recebeu um prémio numa das edições da CRIATIVIARTE, concurso de artes plásticas de Montemor.O.Novo, com edições anuais.
É então a esse universo, o dos referentes orgânicos vegetais, que o meu trajecto me traz de volta. Alguns anos se passaram desde essas primeiras abordagens, e os vários caminhos seguidos desde então, moldam hoje as características formais desta nova colecção.
As imagens presentes neste post documentam o arranque desta nova série de trabalhos, nos quais me declaro rendido à beleza orgânica de nabos e cenouras com rama (os primeiros dois referentes da colecção), cujas dinâmicas formais e cromáticas me inspiram, ao longo de processos influenciados também pelas variáveis pictóricas do universo da ilustração. Os trabalhos são reproduzidos em mini-séries de 15 unidades, impressas no belíssimo papel texturado Fineart Printing Paper da Hahnemühle, assinadas e numeradas manualmente.
Ao ritmo de uma horta serena irá esta colecção crescendo…





