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Friday, August 5, 2022

[ Românico ao romper da aurora ]


POST SOUNDTRACK:

https://www.youtube.com/watch?v=ON-j7xjUfNQ  


Esta é uma das minhas ilustrações preferidas do Marca a Página 11, da Porto Editora.

A perspectiva do ângulo de representação que escolhi para o enquadramento é obviamente um dos motivos desta preferência.

Mas, também decisivo para tal, é o contexto narrativo a que a ilustração se destina. Nesta parte da acção, Simão Botelho encontra-se a contemplar o romper da aurora, sentado nos degraus do patamar da igreja. À sua frente, o calor cromático da luz solar começa a conquistar a frieza azulada do fim da madrugada, que o nascer do dia vai deixando para trás.

No corpo da personagem, a luz amarelada dos primeiros raios de sol vai anulando os azuis acinzentados que até então o envolviam.

Por detrás desta figura, em jeito de moldura, vê-se um pouco da pesada fachada de granito, da igreja. O arco da entrada, de volta perfeita, cria na sua profundidade, uma zona de sombra que faz a transição da luz exterior para a obscuridade contemplativa do interior. A rosácea por cima da entrada, será a principal fonte da ainda assim reduzida luz da nave central. 

Traços claros de Românico…

No curriculum programático dos então cinco anos do meu curso de Belas Artes, o primeiro nível da cadeira de Fotografia (Fotografia I), era de frequência obrigatória. Fi-lo com muito entusiasmo. Nesse ano, como em qualquer primeiro nível de uma disciplina técnica, numa primeira fase, os alunos são levados em viagem aos primórdios das práticas da área em causa, para conhecer e interiorizar os princípios orientadores da técnica, permitindo posteriormente aspirar a dominar as variáveis que condicionam o desempenho operativo. Esse percurso levou-nos, a nós alunos, a captar prolificamente imagens, através de um sistema denominado "caixa com furo de agulha". Este método converte qualquer vulgar caixa de sapatos, num mágico sistema de captura de fragmentos da realidade. 

O valor do diâmetro do furo de agulha (a rosácea), cozinhado com a intensidade da luz no local, medida por fotómetro manual, em articulação com o tempo de exposição e a distância focal (tempo pelo qual a luz atravessa a nave central), projectam na parede de fundo da caixa (a do altar), devidamente pré-forrada a papel fotográfico (virgem), o instantâneo invertido do tal fragmento de realidade.

A Faculdade de Belas Artes de Lisboa, ocupa parcialmente o Convento de São Francisco, na zona histórica da cidade. As características arquitectónicas deste edifício proporcionam enquadramentos cénicos incríveis, e assim, muitas das minhas "fotos" de "caixa de furo de agulha", resultam em registos fantásticos de recantos conventuais, traduzidos na linguagem granulosa, de um preto e branco pouco focado, característica da técnica "de furo de agulha".

O resultado formal destas experiências afigurou-se-me fascinante.

A frequência de Fotografia II já era opcional. O programa desse segundo degrau formativo pressupunha o desenvolvimento anual de um tema auto-proposto. Perfeito…

Sendo uma cadeira externa ao currículo obrigatório do curso, a não obrigatoriedade de aprovação no final do ano, permitir-me-ia desenvolver o percurso do patamar II, ao ritmo a que me fosse possível, sem a pressão da necessidade de obtenção de nota.

Vi aí a oportunidade para dar largas a este tal fascínio recém-descoberto.

A escolha do tema que me proporia trabalhar, foi bastante evidente, embora assumidamente muito pouco sintética: "Estruturas e espaços de inspiração religiosa e sua relação com a luz". Muitas palavras para caracterizar a abrangência de um tema ainda mais extenso que o título, tanto em etapas, como em caminhos a percorrer. 

Mas eu tinha tempo…

O meu plano passava por registar e digerir esta estranha e volúvel relação entre devoção, e, maior ou menor isolamento lumínico.

A obscuridade, própria de muitas das estruturas de motivação religiosa, pontualmente interrompida por farpas de luz provenientes de aberturas ou interrupções dos planos sensorialmente limitadores, prometia registos fotográficos belos e misteriosos. Por outro lado, a torrente de luz colhida pelos enormes e numerosos vitrais das grandes catedrais do gótico tardio, ou até mesmo o céu aberto das capelas im"perfeitas" do mosteiro da Batalha, era também algo que me fascinava.

O meu alinhamento de trabalho incluía então, desde monumentos megalíticos até igrejas góticas, tendo pelo meio, muito, mas muito… românico. Na verdade seria esse o meu principal campo de recolha.

Iniciei os registos com fotografias na Sé de Lisboa, já bem minha conhecida, e em algumas igrejas espalhadas pontualmente por paisagens alentejanas. 

Conjugando este trabalho com um outro para a cadeira de História da Arte, planeei com três amigos uma pernoita no interior de uma anta (megalitismo do Neolítico), de forma a constatar e registar fotograficamente o alinhamento do corredor de entrada dessa estrutura, com a direcção dos primeiros raios de sol da aurora do solstício de inverno. Infelizmente, nessa madrugada de dezembro, o nascer do sol foi totalmente ocultado por uma densa camada de nuvens, que impossibilitou o sucesso no objectivo comum a ambos os trabalhos.

O leque de pontos a fotografar ia obviamente crescendo à medida que as minhas pesquisas e conversas sobre o tema iam avançando, e, a tarefa a que me havia proposto, rapidamente se revelou incompatível com a realização do trabalho em apenas um ano lectivo. No ano escolar seguinte inscrevi-me então, novamente, em Fotografia II, para dar continuidade ao dito trabalho.

Numa ida a uma feira de livros em saldo, a minha escolha recaiu, para espanto de alguns amigos, sobre um pesado tijolo de papel, resultante de um levantamento exaustivo e cinzento, do "Românico em Portugal", paginado de forma monótona, com manchas de texto cansativas e fotografias monocromáticas de impressão manhosa. Foi esse o livro que eu escolhi comprar…

Mas o auge programado do meu trabalho passaria por uma viagem fotográfica em modo de passeio a pé e pernoitas ao relento, até à incrível capela românica de S. Pedro das Águias, situada numa zona de escarpas rochosas, perto de Viseu. Esta pequena igreja de nave única, e cuja porta de entrada dista aproximadamente 1,5 metros da parede da encosta escarpada que se ergue a partir desse patamar, possui uma iluminação interior mínima, veiculada por pequenas frestas nas paredes laterais. 

Românico puro…

Esta viagem não aconteceu no entanto nesse ano… nem no seguinte… nem em nenhum dos que se lhes seguiram… e a dimensão do trabalho a que me havia proposta, tornou-se incompatível com as outras vertentes que na minha vida reclamavam, essas sim, estatuto de… frequência obrigatória.

O desenvolvimento e conclusão do trabalho ter-se-ão esfumado no tempo, ou, mais precisamente, na falta dele… demonstrando uma brevidade que o românico, com as suas pesadas paredes de pedra, desconhece.

Como referi, Fotografia II não era de frequência obrigatória, e assim, o que perdi foram alguns belos passeios que ficaram por fazer, mas… o românico resiste bem à passagem do tempo, e S. Pedro das Águias lá continuará, de costas viradas a nascente. A base do lado exterior dessa parede é composta por dois degraus… poiso perfeito para contemplar a vitória da luz do amanhecer sobre a obscuridade azulada da madrugada no vale.

Friday, July 22, 2022

[ Antero de Quental #2 ]

 



A alma de Antero era atormentada. O seu corpo pouco podia contra a assombração do espírito que o fustigava em permanência… o seu. 
A 11 de Setembro de 1891 matou-se a tiro de pistola, na terra que o viu nascer – Ponta Delgada. Por cima do banco que escolheu para assento nesta tarefa final, estava uma placa embutida na parede. Essa placa havia sido lá colocada com um fim… o de exibir uma palavra. Lá, gravada em alto relevo, podia ler-se "ESPERANÇA".

Tuesday, May 17, 2022

[ Antero de Quental #1 ]


POST SOUNDTRACK
https://www.youtube.com/watch?v=GFoT6UUNLZc

      Com os Mortos


Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.


Antero de Quental

Wednesday, May 11, 2022

[ Grato a Eça ]



O autor que me fez descobrir o enorme prazer que a leitura de um livro pode proporcionar, foi Eça de Queirós.
O livro veículo desta descoberta… A Ilustre Casa de Ramires, com primeira edição publicada há 122 anos.
A nível de conteúdo, houve para mim, na leitura deste livro, um grande alinhamento de referências narrativas, com referências pessoais do meu eu da altura. A vertente da acção medieval, presente nas vivências de Tructesindo Ramires, encaixou que nem uma luva num imaginário que eu explorava em banda-desenhada de produção própria. Também me disse muito a aura do tradicionalismo rural português de Vila Clara, na qual decorria uma parte da acção do tempo "presente" do livro. 
Mas a experiência desta leitura foi marcante a um outro nível. Consigo recordar com enorme nitidez, os finais de dia passados em solitária e saborosa degustação do meu livro… na sala da casa, lendo à luz amarela do candeeiro que estava na prateleira superior do móvel da aparelhagem Onkio. No gira-discos, como moldura sonora desses momentos, eu, com frequência fazia rodar o vinil dos concertos de Brandenburgo, de Bach, numa fantástica gravação da Deutsche Grammophone de uma interpretação com instrumentos da época. 
… Como encaixava bem aquela música nas páginas do meu livro… 
… Como encaixava bem esse binómio nos fins de dia do meu eu da altura…
Num dos anos escolares seguintes, o programa de leituras da cadeira de Português trouxe até mim Os Maias. 
Nessa outra fase da minha adolescência, também este livro me proporcionou belíssimos momentos de leitura. 
A tragédia amorosa de Carlos da Maia e Maria Eduarda, confirmou-me um convicto fã da escrita de Eça. 
Tendo esses momentos da minha vida ainda tão presentes na memória, foi com enorme entusiasmo que recebi o desafio da Porto Editora para ilustrar alguns momentos narrativos d'Os Maias, para o Marca a Página 11, manual de português elaborado pela fantástica equipa de autores (Bárbara Tavares, Daniela Pinheiro, Isolete Sousa e Ricardo Cruz, com coordenação editorial de Carla Pereira), com a qual já havia tido a sorte de trabalhar na construção do livro do 10° ano, da mesma disciplina.
A intrincada relação entre ilustração e texto, faz com que o resultado final dessa união, seja, na mente do leitor, muito diferente da contemplação das partes em separado. O efeito sugestivo da ilustração, influencia (positivamente, deseja-se), a construção mental que o leitor faz do conteúdo das palavras escritas, à medida que este lê o texto, e, em sentido inverso, o texto confere, na imaginação do leitor, acção e vida aos inanimados bonecos presentes na página, os quais, de outra forma, valendo só por si, ficariam grandemente desprovidos de alma (anima / animação). 
A vida narrativa da ilustração está no texto. A construção que o leitor faz da história é formalmente moldada pela ilustração.
À luz desta ideia, foi então para mim um prazer enorme contribuir para a construção mental que os futuros leitores deste manual (Marca a página 11), farão de uma obra literária escrita por um dos meus autores preferidos.
No momento particular a que alude a ilustração apresentada neste post, ao entrelaçamento físico das personagens, idealizado e descrito por Eça, pude emprestar a minha própria noção de abraço apaixonado, e de sorriso cúmplice e feliz. A acção será desenvolvida e continuada na mente do leitor, por Carlos da Maia e Maria Eduarda, à medida que a narrativa os conduz através da sala das tapeçarias, em direcção ao quarto. Há poucos instantes… ou daqui a um breve momento… Carlos pousará no pescoço de Maria Eduarda um beijo longo e lento, e ela abandonar-se-á mais… e os seus olhos cerrar-se-ão pesados e vencidos…
"Viram" isto acontecer?
…
Eu sim, claramente.




Wednesday, June 16, 2021

Monday, June 7, 2021

[ Os Judeus casamenteiros ]

 



Os dois judeus ilustrados neste boneco, poderiam ser habitantes da Jerusalém dos tempos modernos, e, com a linguagem corporal representada, mostrarem-se assim abismados com a presença flutuante do OVNI que por volta da 01:00h da madrugada de 28 de Janeiro de 2011, pairou sobre a cúpula do templo existente na formação geológica denominada de, pasme-se, "monte do templo".
Após pairar imóvel por instantes, o objecto elevou-se verticalmente a uma velocidade estonteante, desaparecendo no céu escuro dessa noite.
Existem 5 registos em vídeo desse episódio, com origens diferentes, e estão todos disponíveis na grande plataforma caracterizadora de uma parte considerável daquilo que se pode definir como, legado da humanidade… plataforma essa chamada youtube.
Nenhum desses vídeos foi captado por nenhum destes dois personagens, os quais contemplam então, e apenas, a janela quinhentista de Inês Pereira, situada na rua imaginada pelo brilhante Gil Vicente, para o universo ficcional por si criado, no âmbito da construção da "Farsa de Inês Pereira".
À semelhança de Jerusalém também os caminhos desta narrativa são percorridos por personagens de diferentes credos e origens.
As suas interacções são no entanto bem mais pacíficas do que as observáveis actualmente nas ruas da cidade três vezes santa.
O episódio que referi nas primeiras linhas deste texto, ter-se-á passado num quadrante muito específico dos céus da cidade, e poderá ser interpretado como um atestado de relevância, numa determinada narrativa cosmogónica, e transtemporal.
Mas, não só nos céus de Jerusalém se atesta essa relevância. O subsolo da cidade exibe outro tipo de testemunhos.
A estrutura do "muro das lamentações", coloca-o no conjunto de monumentos do mundo, que ostentam indícios de que a história das civilizações do nosso planeta terá que vir a ser reescrita, em função de uma interpretação mais rigorosa dos vestígios que nesses locais é possível observar.
Num determinado troço da referida edificação encontra-se, embutido na estrutura, um monólito ortogonal, com aproximadamente 13 metros de comprimento x 3,7 metros de altura x 4,3 metros de largura, cujo peso está calculado em… aproximadamente 600 toneladas. Estes valores numéricos são impressionantes, mas, para ajudar a interiorizar a enormidade aqui em causa, poder-se-á dizer que este peso será o equivalente ao de dois aviões Jumbo 747, com passageiros e bagagem a bordo.
Este monstro estrutural encontra-se (como habitualmente nestes locais), articulado com os pedregulhos vizinhos, com precisão milimétrica, e sem recurso a qualquer tipo de cimento ou argamassa de qualquer tipo ("construção seca").
A título de nota refira-se que esta barbaridade não é única no planeta. Não é nem sequer a maior. Na verdade, é conhecida a existência em outras partes do mundo, de monólitos ortogonais talhados com o dobro do peso, e até mais (Balbeque, Líbano – aprox. 1500 toneladas).
Apesar da boa vontade voluntariosa da arqueologia, incansável na tentativa de explicar a produção e manuseamento destes blocos, a engenharia actual tende a deitar por terra todo esse discurso, esmagando-o com o peso dos números envolvidos.
A simples presença deste tipo de módulo edificativo num determinado local, é então suficiente para tornar esse local, digno de referência.
Na cidade 3 vezes santa, essa relevância afirma-se com evidência, embora por outros motivos mais significativos para a história da humanidade, ainda nos dias de hoje, e perante todos nós.
Em muitos desses outros locais, essa relevância esbateu-se, ou diluiu-se mesmo integralmente, e aguarda uma nova revelação que será trazida pelo entendimento de tempos que, infelizmente, ainda parecem distantes no futuro.
Estou convencido de que o futuro trará também uma outra realidade à cidade de Jerusalém. Quando a humanidade aceitar que a solução dos problemas planetários não se compartimenta em fascículos fechados em fronteiras, e as vivências religiosas, se espartilhadas, não conduzirão à máxima amplitude do espírito.
Nessa altura, a tripla santidade de Jerusalém fundamentar-se-á nos pontos de contacto entre religiões, e na relegação das diferenças para segundo plano, ao invés do panorama contrário observável na actualidade. 

Latão e Vidal, os dois personagens judeus, por interesse próprio apresentam a Inês um escudeiro fanfarrão, constituindo-se como ponte na união destas duas almas cristãs. O escudeiro conduzirá depois Inês à infelicidade, e, posteriormente, na guerra, virá este a ser morto por um pastor muçulmano.

Até lá… até esse tal futuro, o caminho parece ainda infelizmente longo, sofrido e sombrio…
… a menos que venhamos a ter uma ajudinha de fora… ; )

Thursday, May 27, 2021

[ O Trovador ]


O “Trovador”, é uma das ilustrações que criei para o novo manual de português, do 10° ano, da Porto Editora. O livro chama-se “Marca a Página”, e a sua construção esteve a cargo da experiente editora Ana Guedes, tendo como autores as professoras Bárbara Tavares, Daniela Pinheiro, Isolete Sousa e o professor Ricardo Cruz.

5 intervenientes com uma generosidade de referência obrigatória, aos quais dirijo, agora neste modestíssimo forúm, mais um sincero agradecimento.

Este desafio foi para mim, como habitualmente, propiciador de momentos de enorme prazer ilustrativo.

Como já referi em posts anteriores, a minha natureza criativa sente-se especialmente desafiada pelas áreas irregulares deixadas em branco no layout das páginas, durante a fase de paginação, destinando-se essas zonas ao preenchimento por ilustrações.

A minha mente entretém-se a adaptar e a sobrepor a essas áreas, bonecos, apresentando posturas exóticas e composições estranhas, na procura activa de conciliar, de forma o mais articulada possível, a realidade narrativa da ilustração com o contexto gráfico da página.

A minha vertente de designer, largamente familiarizado com os desafios da formatação de páginas e layouts com eficácia comunicativa, é, reconheço, uma enorme ajuda para esta tarefa…

Mas, como se verá mais à frente, não é dessa ajuda que quero falar à reduzida, paciente, compreensiva e persistente, pequena audiência deste blog.


Este “Trovador” deixou-me muito contente. 

É das ilustrações de que mais gosto, no conjunto que produzi para o “Marca a página”. Na verdade, deixou-me tão satisfeito, que acabou por dar origem a uma pequena animação, que aprofunda um pouco mais o contexto que a minha mente foi construindo ao idealizar este boneco.



Quem faz o favor de acompanhar a minha produção ilustrativa sabe que, ocasionalmente (sempre que possível e adequado), opto pela incorporação de referências naturais, eventualmente relevantes no panorama das minhas vivências… Este, é um desses casos… ainda para mais, potenciado pela vertente multimédia possibilitada pelo formato vídeo. 


O Trovador está sentado num afloramento rochoso, que foi aproveitado para suportar parte de um muro de uma casa isolada no campo. 

Encontra-se confortavelmente à sombra de uma pequena árvore que, faz muito tempo, despontou e cresceu logo ali ao lado. 

A tarde esteve quente, e à medida que o dia se vai aproximando do fim, a temperatura tornou-se amena… muito agradável. 

O homem está entregue às deambulações dos seus pensamentos, e, 

de olhar posto no infinito, vai dedilhando as cordas do seu Alaúde. 

Essas cordas fazem parte do seu corpo, 

e o som que libertam é um murmúrio da sua alma.


Esta sintonia entre o personagem principal e as coisas da natureza, é observada em primeira fila, por um espectador discreto, posicionado à direita do ecrã, pousado em cima de uma outra pedra.

Trata-se de um melro macho adulto. 

Foi então para a criação desta envolvência natural, na qual se inclui o referido personagem secundário, que contei com algumas ajudas, que aqui passo a  referir…

– Para representação desta ave, contei com o imprescindível desempenho de modelo, de um dos vários melros que vêem diariamente (na verdade várias vezes ao dia) alimentar-se e descansar na nossa varanda. O referido pássaro fez o favor de pousar para mim, paciente, enquanto eu rapidamente lhe captava os traços caracterizadores.

– Contei ainda com a preciosa ajuda da Maria João que, (além da habitual e preciosa assessoria em pareceres ilustrativos), há vários anos iniciou este ritual de alimentação da vida selvagem local, o qual desde então traz à nossa varanda, geração após geração, algumas famílias de melros (entre outros animais), com as quais já desenvolvemos níveis bastante simpáticos de interacção inter-espécies.

– Para o contexto sonoro desta ilustração animada foi também fundamental a ajuda natural de congéneres de melro, e afins, que habitam as áreas verdes das traseiras da nossa casa, e que fizeram o favor de entoar o chilrear harmonioso audível nesta banda sonora.

Sou assim um ilustrador com muita sorte… e com este tipo de ajudas tenho o trabalho muito, muito facilitado.

Manifesto-me grato  ; )



Wednesday, May 19, 2021

[ Medusa ]


POST SOUNDTRACK
https://www.youtube.com/watch?v=7HjaGF5TLNI

 Medusa, filha de Phorcys e Ceto, era uma das três Górgonas…

… havia sido agraciada com uma beleza extasiante…

assim que os olhos de homens ou mulheres contemplavam Medusa, os seus corpos experimentavam um momento de petrificação contemplativa… A beleza de Medusa, nos primeiros instantes em que era contemplada, esvaía por momentos a vida dos corpos que a observavam.

Dos vários aspectos constituintes da sua formosura, um se destacava claramente… O seu deslumbrante cabelo.

Medusa dedicava-lhe cuidados demorados, e isso era evidente. O delicado volume sedoso que emoldurava o seu rosto, deslizando suavemente pelos ombros até meio das suas costas e peito, tinha uma cor definível entre o ruivo e o acastanhado, e a incidência de luz originava invariavelmente, brilhos acobreados e vários matizes de cor… 

Vê-la iluminada pela luz da ala principal do templo, onde passava a maior parte do seu tempo, era nada menos que hipnotizante.


Atena, a deusa… era atormentada por uma inveja obsessiva induzida pela beleza de Medusa, e em particular pelo lindo cabelo desta sua serva.


Diz-se que num certo dia, Poseidon, Senhor dos Mares, ao observar Medusa, sózinha, desempenhando as suas habituais tarefas votivas, terá por ela sentido um desejo incontrolável, e à força, tê-la-á tomado num envolvimento físico contrário à vontade desta.


Atena, apesar de não estar corpóreamente no local nesse momento… era um espírito omnipresente no seu templo. Ela sabia de tudo.

Viu então no desrespeito devocional dos actos ocorridos em tão sagrado espaço, o motivo para finalmente descarregar em Medusa todo o enorme azedume acumulado pela sua alma, ao longo de eras de inveja.

Mesmo sabendo que Medusa havia sido apenas mais uma vítima da monstruosa voracidade de Poseidon, considerou-a culpável por… 


…no fundo por nada mais do que pela irresistibilidade da sua beleza.


Num ímpeto de ira decidiu amaldiçoá-la para todo o sempre.

Se a sua beleza havia até aí causado prostração a quem a contemplava… a partir daí, causaria autenticamente a petrificação do observador. Quem olhasse para Medusa converter-se-ia instantaneamente numa estátua de pedra…

Se o seu maravilhoso cabelo tinha até aí sido alvo de veneração própria, e alheia… a partir daí, seria motivo de horror para toda e qualquer criatura que o visse. Cada mecha de cabelo se transfigurou nesse momento numa serpente venenosa, em disputa hostil e constante com as suas vizinhas…

A existência de previlégio que até aí Medusa havia levado, embebida no facto de ser o centro da admiração dos outros,  converteu-se a partir desse momento, num sofrimento inextinguível e permanente.


Perseu era um semi-deus a quem foi feito um pedido macabro. 

Este é o momento da história que nos conduz à minha ilustração, acima apresentada.

Estando Medusa ainda grávida de Poseidon, foi exigido a Perseu que a decapitasse.

Para tal, Perseu muniu-se de artifícios e manhas, e com muita coragem, foi à procura de Medusa.


Levava na bainha uma poderosa espada de gume curvo, cujo desenho era famoso na antiguidade pelo seu corte exímio.

Ao chegar à antecâmara posou o armamento, e, do saco de couro de veado montês, retirou o seu ipod classic 120 GB,  de 6ª geração, e as 2 pequenas colunas autoalimentadas, as quais colocou simetricamente dispostas em relação ao eixo central da porta de entrada. 

Após desbloquear o aparelho, através do botão de segurança presente no topo do mesmo, deslizou o indicador direito em sentido contra-horário alcançando a playlist que pretendia para emoldurar musicalmente o momento que se seguiria.

Tratava-se do albúm “Miserere” de Arvo Pärt. Perseu queria exactamente a primeira faixa, por isso, uma vez encontrada a playlist, bastou premir o pequeno círculo central… 

…play… 

A banda sonora daqueles que poderiam ser os últimos momentos da sua vida, estava escolhida, e ecoava já pelas divisões abóbadadas.

Alguns breves preparativos mantiveram-no na antecâmara ainda por 2:07 min…


Avançando pé ante pé, Perseu entrou finalmente na área principal. A luminosidade era reduzidíssima. Apenas duas lamparinas de azeite mediterrânico produziam chama, e isso era claramente insuficiente para tão difícil tarefa… Progredir de costas voltadas para a zona onde esperava defrontar a sua adversária, guiando-se apenas pelo reflexo esbatido daquela obscura realidade, numa pouco espelhada superfície metálica, produzida com outro fim que não o de devolver imagens a um qualquer observador.

Conseguiu assim, lentamente, chegar ao fundo da grande sala, e, vislumbrar o movimento lateral de um vulto que se deslocou a partir de um canto escuro daquele espaço.

Perseu estranhou a velocidade que sentiu nesse movimento… Demasiado lento para um ataque, mas ainda assim suficientemente rápido para merecer toda a sua atenção e agilidade de resposta.

O indicador de tempo decorrido na faixa em reprodução no seu iPod, o qual havia por si sido depositado à entrada da antecâmara, marcava então 5:52…

Foi por instinto que Perseu se virou num ápice, mas conseguindo ainda assim que as emoções do momento não lhe toldassem o raciocínio, fechou imediatamente os olhos para não encarar o vulto que se lhe opunha. Na continuidade desse movimento brusco desferiu um golpe decepante… levando a Medusa o fim do seu martírio existencial.


A amaldiçoada figura não se debateu… Em Perseu ficou a sensação de que Medusa acolhera a morte como uma dádiva libertadora.

Aquela outrora bela cabeça caiu no chão, logo seguida do seu corpo… 

Medusa estaria agora livre para ser bela novamente…

Já no chão, os seus viperinos cabelos mantinham vida própria e continuavam a exibir o vigor e a agressividade que lhes era conhecido. Os olhos de Medusa permaneciam abertos, contemplando o seu carrasco.


Este é o momento que registo no meu desenho…