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Wednesday, June 17, 2020


Este desenho foi riscado a sangue.
Trata-se da representação parcial de um crânio de borrego, materializada através da utilização de um canal de cobre, de secção reduzida e ponta achatada, riscando e ferindo uma grossa folha de 350 gr de papel de algodão.
A ferramenta tem tanto de original quanto de bizarro, eu sei… foi imaginada e produzida por mim, e a escolha de material foi um pouco condicionada pelos despojos existentes nas gavetas da enorme estante de madeira maciça, âncora transgeracional da cultura familiar, que estava nessa altura fundeada no meu espaço da trabalho. A ideia ocorreu-me quando, necessitado de criar uma forma de fazer o material tingidor do papel (o tal sangue), fluir suavemente à velocidade do arrastamento da mão pela superfície a tingir (o tal papel), fui claramente inspirado na dinâmica através da qual funciona a escrita com penas de aparo. Em termos operativos resultou bastante bem.
Permitiu-me realizar uma série de desenhos reunidos numa exposição a que chamei "Natureza Morta" (a relação do título com os referentes e técnicas utilizadas parece-me dispensar explicação).
Essa exposição foi o culminar de um percurso iniciado nas aulas de desenho de Belas Artes, através da representação em grande formato de ossos de cavalo, couves portuguesas, etc., obtidos em deslocações frequentes ao mercado da ribeira, e com arranque acompanhado/orientado, para minha grande sorte, pela nossa excepcional professora de Desenho de segundo ano, Luísa Arruda.
Na altura em que finalizei este conjunto de trabalhos, a escolha de trabalhar com sangue, estando eu a desenhar elementos orgânicos, e sendo o próprio sangue uma matéria-prima cromática também ela orgânica, pareceu-me de enorme coerência conceptual.
Por outro lado tratava-se de recuperar o recurso a um pigmento já amplamente usado numa determinada fase da história (também ela totalmente orgânica).
Tudo isto era mentalmente bem digerido em regulares passeios de dois dias à Serra de Sintra… serra essa também muito orgânica : D
Saltando agora para um períudo mais recente, mas não abandonando a temática…
Sobre sangue há algo mais que tenho a dizer.
Há 235 dias, num post deste blog cujo contexto era o da práctica do barbear tradicional, iniciada aliás na manhã seguinte a esse post, e não mais abandonada, deixei no ar estagnado deste repositório de publicações uma questão pendente… Volto a enunciá-la:

(…)
"Resta saber se dos inúmeros cortes que irão certamente aparecer no rosto deste ilustrador,
jorrará sangue vermelho, ou… tinta preta.
"

Pois, dos cortes feitos na pele do meu rosto ao longo de todos estes dias de barbear tradicional, tem de facto brotado um fluído negro… se é sangue ou tinta não sei. Como está bem patente no texto deste post o potencial pictórico desse fluido é ENORME… Torna-se assim difícil rotulá-lo.
Uma coisa é certa… trata-se garantidamente de uma orgulhosa herança de minha trisavó Jacinta Vieira Lorta, que o desencontro geracional já não me deixou conhecer neste plano de existência – fica para depois trisavó ; ) – mas acredito que tal encontro ainda virá a acontecer.
O barbear tradicional, esse, está na minha vida para ficar. O objectivo principal que me levou a adoptá-lo, de carácter ecológico e de sustentabilidade, foi claramente atingido.
Já os cortes são cada vez menores e mais raros…
A experiência acumulada tem destas coisas.

Wednesday, April 8, 2020

[ Reial Acadèmia Catalana… ]


A imagem não reproduz uma ilustração. 
Trata-se de um desenho concebido como um fim em si mesmo… caneta preta sobre papel Fabriano (50% cotton) de 300 gr, formato 700 * 700mm
(… No photoshop here…).
Estas folhas… grossas e levemente texturadas, são enormes áreas de papel que pedem ruidosamente para serem desenhadas… Uau!
Este exemplar, em termos de referente e técnica, encaixa numa colecção que produzi com o objectivo de explorar amplamente esta técnica de traçado abundante, importada directamente de algum do meu trabalho de ilustração.
Mas, este concreto exemplar foi gerado num contexto especial. Foi desenhado para ir a concurso à Reial Acadèmia Catalana de Belles Arts de Sant Jordi.
O facto de, na altura, eu estar a trabalhar na série que já referi, havia já resolvido dois grandes problemas: o que desenhar (tema geral), e, que técnica utilizar para o fazer… Tratou-se "apenas" de produzir mais um elemento do conjunto já em desenvolvimento.
Para esta composição procurei um jogo de luz dramático (comum a toda a série), e, uma articulação de planos que me permitisse explorar um elaborado jogo de gradações lumínicas e texturas riscadas.
Em cima da cómoda representada num ângulo picado, e abundantemente iluminada pelo candeeiro presente em primeiro plano, coloquei um livro aberto… o livro de Algebra de meu avô. 
Trata-se de um livro pequeno, forrado a papel com impressão tipo "padrão de pele de bicho", que no verso de capa tem o seu nome muito bem desenhado com letra de criança aplicada, junto com a referência "n° 19 da 5ª A". A folha de rosto encontra-se reproduzida no meu desenho, e em baixo, numa pequena mancha de texto composta em 3 linhas lê-se: "Lisboa / Imprensa Nacional / 1924". A folha de rosto tem ainda um carimbo que o tempo está a tentar consumir, relativo à livraria de Faro onde o pequeno volume terá sido adquirido. Esse fantasma de carimbo não consta do desenho.

A necessidade de enviar "a obra" para longe de casa, através de sucessivas e eventualmente pouco cuidadosas mudanças de meio de transporte, garantindo, ainda assim, que a mesma chegava ao destino em boas condições para me representar em concurso, com moldura e vidro na mais intacta e imaculada forma da sua existência, levou-me a conceber e executar uma elaborada embalagem de transporte. Cartão por fora, seguido de dois paineis de aglomerado consistente nas duas faces correspondentes às frente e verso da moldura, envoltos em película aderente impermeabilizante abraçando o conjunto, seguidos de uma grossa camada de esferovite em todas as faces, esferovite essa que era esculpida interiormente a quente, por forma a receber à justa, a moldura de madeira clara e perfil minimalista. Uma vez introduzido o conteúdo, o conjunto era então fechado com uma tampa que abraçava ainda uma pequena porção de moldura.
Em resumo – uma maravilha da construção artesanal de embalagens…
O desenho foi assim despachado.
Sabê-lo chegado, e em boas condições foi uma grande alegria.
A partir daí tudo estava então em aberto.

Da enorme quantidade de trabalhos recebidos, o júri seleccionaria perto de 230.
Havia larga margem para esperança e optimismo.
Essa selecção iria constituir a exposição desse ano. De entre esses aproximadamente 230 trabalhos escolher-se-iam os 3 premiados.
Se eu achava bastante possível a eventualidade de vir ser escolhido para integrar a exposição geral, já a selecção para os 3 trabalhos premiados anualmente me parecia bastante remota e distante.

O resultado chegou daí a uns dias, por correio…
Após perceber a identificação do remetente,  com emoção e expectativa abri o envelope… A área de texto impresso era pequena… seria a Reial Acadèmia Catalana de Belles Arts de Sant Jordi exímia no minimalismo escrito? Na contenção comunicativa…
Afinal apenas tinham pouco a dizer…
Resumindo o já de si resumido: o meu desenho tinha ficado de fora da abrangente selecção, e apesar da sua "evidente qualidade" iria ser-me devolvido…
Admito que foi um duro golpe, do qual demorei umas horas a recuperar.

Estou contudo certo de que a minha fantástica embalagem arrasou!!! A Catalunha rendeu-se boquiaberta à mestria patente na construção de tal contentor artesanal.
Andarei agora ainda mais atento a todo e qualquer concurso de…    embalagens.
Em matéria de desenho fica aqui no entanto o compromisso assumido perante a Reial Acadèmia Catalana, por escrito, nas linhas deste blog, e ainda para mais em catalão:
… o compromisso de que este modesto desenhador…

Vaig continuar practicant

Thursday, January 16, 2020

[ Livros escolares _ Raíz editora ]


Ilustração para Gramática Prática de Português da Raiz Editora (antiga Lisboa Editora).
Este boneco documenta mais uma agradável passagem pelo universo dos livros escolares. Ilustrações simples, de descodificação rápida, para as quais procuro perspectivas enriquecedoras e ângulos diferentes, e nas quais a articulação com os fundos brancos, predominantes, representa um desafio acrescido do qual eu gosto muito. Estes espaços brancos são aliás, para mim, como portais temporais da minha relação com a ilustração…
Quando estou a conceber estas ilustrações lembro-me sempre dos tempos em que era eu a estar do lado de lá do livro. Já nessa altura os espaços em branco existentes no zigue-zague dos conteúdos gráficos presentes nas páginas dos livros escolares chamavam por mim como sereias nos mares de Ulisses. Eu não hesitava, atirando-me de cabeça, borda fora da narrativa das aulas… caindo dentro dos mares azuis de elaborados desenhos a esferográfica BIC cristal… azul pois claro.
Infelizmente, toda essa bonecada de nada me serviu nas avaliações de matemática.

Monday, December 23, 2019

[ Feliz Natal ]



Feliz Natal
Bom 2020


Wednesday, November 27, 2019

[ Um exercício para captura da fera na selva #5 ]


É algo bastante evidente em alguns bonecos que já fiz, mas aqui fica assumido por escrito…
Gosto muito de desenhar cabelos longos e luminosos, com curvas e contracurvas, reflexos e sombras, voltas e apertos de linhas fluidas… de confluência orgânica.
Diz-se que quando se faz algo que nos envolve em semelhante grau de satisfação… que isso é já meio caminho para que o resultado saia bem feito… Espero que assim seja.

Sunday, November 10, 2019

Saturday, October 26, 2019

[ barbear tradicional )


O ilustrador responsável por este blog integra a partir de hoje o grupo de utilizadores de engenhocas de barbear tradicional, com recurso a perigosas e ameaçadoras lâminas autónomas e descartáveis.
Questionar-se-á eventualmente quem lê, sobre o porquê desta revelação pública (ou com aspirações a tal), relativa a tópicos comummente relegados para aquilo que deve permanecer trancado nas catacumbas sombrias da reduzida esfera de intimidade do comum ser humano…
Ficará esta questão no ar, enquanto explano primeiramente o móbil desta mudança radical em tão relevante hábito da minha rotina diária.
Eis pois que me trazia assaz melindrado, há já bastante tempo, o resultado da consideração racional sobre a enorme quantidade de dispositivos de barbear, materializados no tão famigerado plástico, por cuja introdução nas cadeias de reciclagem e desperdício eu era o mais directo responsável.
Não sendo adepto da moda das barbas de inspiração bíblico-proféticas (em ar de tecitura de nidificação para acolhimento de seres vivos), tão em voga na actualidade, optei então por esta mudança operativa indutora de um claro alívio da minha pegada ecológica.
Pode muito bem ser que, a exposição do motivo por detrás desta iniciativa, tenha começado a desenhar na mente de quem se mantém ainda activo na leitura deste breve texto, um esboço sumido, daquela que terá sido a minha motivação para a partilha desta informação… Na verdade, aspiro assim, com este post, a semear na mente de outros eventuais utilizadores de dispositivos de barbear materializados em plástico, a dúvida sobre a sustentabilidade da técnica adoptada em função das ferramentas escolhidas.
Mas sinto ainda que a pertinência desta entrada no meu blog não se encontra totalmente justificada. Afinal, este é um blog subordinado à temática da ilustração e actividades a si conexas.
Vou então, a título de ponte temática, mencionar algo de que me apercebi ao executar o desenho acima publicado, tendo porém, clara noção de que tal associação conceptual apenas me ocorreu pelo facto de, ao começar a desenhar, não ter ainda decorrido uma modesta hora, desde a compra do meus novos brinquedos de barbear. 
Então aqui vai… 
… sobre as semelhanças e afinidades encontradas entre, no acto de desenhar, o manuseamento da caneta, e no acto de barbear (segundo as preciosas e detalhadas indicações do estimado comerciante, e também na minha modesta experiência), o manuseamento do dispositivo de corte. 
Como assim? 
… ocorreu-me então, ao aplicar a subtil sombra riscada que se encontra por baixo da máquina de barbear presente neste desenho, a existência de um paralelismo convicto entre ambas as experiências e seus resultados. Na verdade, em ambas, inclinação a menos na ferramenta, bem como inclinação excessiva da mesma, poderão em seu tempo produzir resultados de inferior qualidade ou eventualmente desastrosos na obra. Da mesma forma, em ambos os processos, o controlo da pressão aplicada manualmente ao instrumento operativo é de vital importância na produção de efeitos na zona de contacto entre superfícies… respectivamente do bico da caneta no papel, e, da lâmina afiada na superfície (ou algo mais profundamente) da pele.

Resta saber se dos inúmeros cortes que irão certamente aparecer no rosto deste ilustrador, jorrará sangue vermelho, ou… tinta preta.

Wednesday, September 18, 2019

[ Egoísta Democracia ]




A mais recente edição da Egoísta é dedicada ao tema "Democracia".
Este esboço ilustra a procura da solução formal/funcional para a capa.
A ideia por detrás deste layout é a de que a capa funciona como uma urna de voto na qual está previamente semi-inserido um boletim dobrado em 4.
No rodapé da capa encontra-se um excerto de um poema de Sophia de Mello Breyner: "vemos , ouvimos e lemos... não podemos ficar indiferentes".
A relação do conceito de "Democracia" com o boletim dobrado em 4 e articulado com a ranhura da capa, é, acredito, evidente e decifrável para a esmagadora maioria de potenciais leitores existentes no mundo actual.
Ao retirar e desdobrar o boletim da capa, o leitor apercebe-se de que este é diferente do esperado boletim de voto convencional... No interior, ao invés de se encontrar um alinhamento de opções elegíveis, o leitor depara-se com uma mensagem de conteúdo iconográfico dividida em 3 tempos de leitura. Cada um desses tempos de leitura, faz alusão a uma fase diferente do processo de produção de um voto. Na primeira página do interior da edição (folha de rosto), esse conjunto de icons é relacionado, de forma desenvolvida com o excerto do poema de Sophia, presente na capa.

Se a relação existente entre o jogo formal proposto pelo design da capa e o conceito de "Democracia" é por demais evidente, já a evidência da relação entre o conteúdo simbólico e textual presente no interior do boletim e na folha de rosto, e o conceito de democracia, parece repetidamente negada e refutada pela realidade eleitoral do mundo democrático dos dias de hoje.

Dos sistemas sócio-políticos que a humanidade desenvolveu até hoje, e ainda hoje conhece, a democracia é sem dúvida o que melhor reflecte o ideal da importância da individualidade na constituição do todo.
Há algo de profundamente espiritual nesta ideia.
Se conceitos como, por exemplo, o sistema monárquico, que se afigura como uma modalidade governativa nascida dos tempos de barbárie e de violência física desmesurada, estão vigorosamente implantados no passado, e são gradualmente diluídos no avanço da história, já a inspiração democrática sopra às sociedades humanas como um conceito do futuro, totalmente idealista, e sem âncora firmada na dura vivência do quotidiano das nações que a foram abraçando.
Em breve, na nossa história, se provará se os homens estavam à altura de tão iluminada evolução civilizacional.
Vivemos uma época decisiva para a humanidade, e a Democracia enquanto sistema gerador de decisões com potencial para condicionar o destino de uma fatia considerável, e indirectamente, da totalidade da humanidade, bem como do próprio planeta, será posta à prova com enorme rigor e intransigência.
Neste teste não haverá margem para erro.

O efectivo"funcionamento" das democracias é indissociável de algumas premissas, cuja realidade do dia-a-dia da actualidade, prova reiteradamente não estarem a ser cumpridas. A mais grave ruptura observável nesse pequeno conjunto de pré-requisitos dá-se ao nível do desligamento entre o cidadão votante e a absorção e consequente digestão da matéria prima para produção de um voto de qualidade (sustentado por um discurso racional elaborado e coerente) – a informação.
Uma democracia composta por votos sem qualidade, será ainda formalmente uma democracia, mas, permeável a influências e manipulações que condicionam o rumo resultante das suas decisões.
Essa ruptura é facilmente constatável no decréscimo assustador das vendas de jornais e revistas de informação generalista e independente. Na avaliação dos cidadãos votantes, o acesso a informação de fontes credíveis, bem como a manutenção da independência das mesmas (através da sua sustentação por vendas e publicidade), não justifica, na sua perspectiva (a dos cidadãos votantes), o dispêndio de uma pequena quantia do seu orçamento mensal (equivalente ao valor de uma refeição de fast-food por mês), aplicado na assinatura digital de um jornal generalista com edição diária.
O acesso a "verdadeira informação", pela via do contacto com notícias desenvolvidas e detalhadas, com fontes devidamente identificadas, está a ser voluntariamente substituído por, "ilusão de informação", através da leitura de feeds sucintos (por vezes apenas leitura de títulos) nas redes sociais, muito frequentemente sem acesso às fontes que produziram esses conteúdos.
Esta tendência, a manter-se, acabará por conduzir ao declínio acelerado do nível e qualidade de informação detida pelos cidadãos e também à dificuldade de sobrevivência, e mesmo à eventual extinção dos meios de informação independentes e credíveis, base das democracias saudáveis e funcionais.
Está criado o terreno para a manipulação desinformativa, para as fake-news e para o colapso informativo.
Há uma profunda ironia no facto de este panorama se configurar na fase da história da humanidade, em que se encontra disponível para as sociedades, a maior quantidade de informação de sempre, e de o acesso à informação poder ser feito mais rápida e facilmente do que nunca.

Estarão as democracias actuais à altura do seu melhor desempenho no patamar de desafios que a humanidade tem pela frente?
Estará a humanidade à altura da dádiva espiritual do ideal democrático, que reconhece o valor inalienável de cada um, depositando na unidade a responsabilidade de, colectivamente decidir o destino do todo… do tudo?
O rumo dado por sucessivos actos eleitorais a alguns países do mundo democrático parece conduzir alguns desses estados no sentido do isolamento, da exaltação dos nacionalismos, da afirmação dos interesses exclusivamente nacionais.
Num tempo em que os desafios que se colocam à humanidade e ao planeta, exigem de forma cada vez mais evidente e urgente, acções concertadas a nível internacional, esse rumo focado nos interesses exclusivamente nacionais poderá claramente induzir nestes processos de desafio global, atrasos tragicamente grandes, tendo em conta a diminuta janela temporal disponível para as acções que se impõe desenvolver.
A complexidade e abrangência das temáticas em causa, e sobre as quais os cidadãos votantes são e serão chamados a decidir, é enorme, e exige de cada um, o esforço de encaixar nas rotinas do dia-a-dia momentos dedicados à absorção de informação e sua posterior digestão.

1
vemos, ouvimos e lemos

–  não…  apenas ler os feeds nas redes sociais não é suficiente
– quando um candidato a ditador pretende acabar com uma democracia, a primeira coisa que faz é condicionar os meios de informação. Suportar e fortalecer os meios de informação independente é assim fundamental para a preservação das democracias
– nesse sentido, assinar um jornal generalista independente é uma boa ideia. É possível  fazê-lo mensalmente pelo valor de uma simples refeição de fast-food.
– a troca de ideias permite considerar outras perspectivas sobre a mesma temática, constituindo assim um bom método de definição de posições pessoais.

2
…não podemos ficar indiferentes

– a qualidade global de uma democracia depende da digestão individual que os cidadãos votantes fazem da informação disponível, bem como da forma como reflectem as ideias debatidas nas suas intenções de voto.

3
– votar
– votar mesmo
– para um observador externo à realidade humana, a constatação da existência de elevadas taxas de abstenção, transmitiria, certamente, a ideia de que os potenciais votantes, não valorizam, e, desejam mesmo abdicar do sistema democrático…
a ideia de que desejam…
o fim da democracia

Saturday, August 10, 2019

[ Manifesto ilustrado de coerência ideológica ]


Coisas nossas que só as mães guardam…
A Senhora minha mãe, além de me enformar numa educação excepcional da qual eu, embora tente, não consigo estar à altura, e de me presentear com o património genético dos ilustradores (embora neste desenho ainda não se note), que flui abundantemente no sangue do seu forte ramo familiar, faz ainda o enorme favor de, de tempos a tempos, me pôr em contacto com o meu "eu" do passado, proporcionando eventualmente ao meu "eu" do presente, alegrias artisticas, ou, mais raramente, ideológicas e/ou morais como a de hoje.
Consistiu então esta prenda inesperada na apresentação de um exercício escolar que executei aos 9 anos. A rubrica chamar-se-ia "Novidade de fim de semana", e, aparentemente, consistiria na narração ilustrada de uma actividade marcante do fim de semana anterior.
Aqui vai então a transcrição do meu texto para este exercício:
"A minha novidade de fim de semana foi o filme às 2h20m O Resgate em O Mundo Maravilhoso de Walt Disney. Foi um filme que me pôs ainda mais contra a escravatura."
Ignorando os aspectos a melhorar ao nível da construção de texto, ou o engraçado preciosismo da anotação da hora, o que não me deixou de todo indiferente foi a coerência ideológica desta tenra criatura de 9 anos (o meu "eu" do passado), com o pensamento do meu "eu" do presente, em relação àquilo que é esse prego enferrujado cravado no pé da humanidade, chamado "escravatura".
Fiquei especialmente agradado com o pormenor textual de "… ainda mais contra… ", denotando claramente o aprofundamento de um sentimento já pré-existente, em função da experiência vivida nesse fim de semana.
Aqui fica então uma carinhosa saudação e um agradecido abraço ao meu "eu" ilustrador do passado (algo que, se bem me lembro, "o", ou, "me", teria deixado meio desconfortável).
É claro e evidente que o mérito de tão esclarecidas ideias em tão desmiolada cabeça, só pode cair (para minha grande sorte), sobre o denso manto protector constituído pelo ambiente familiar.
Obrigado e parabéns às raízes, tronco, ramos e folhas da minha árvore genealógica.

Saturday, July 20, 2019

[ O complexo de Cinderela ]


Ilustração para um belo texto de Tânia Ganho, publicado na EGOÍSTA "Era uma vez", com o título O Complexo de Cinderela.
O texto é sobre uma viúva com 65 anos, que, após uma vida de abnegação sentimental, decide recorrer ao sexo pago com um acompanhante masculino, opção essa que a conduz à amplificadora descoberta de uma paisagem física e emocional com contornos por si desconhecidos até então.

Thursday, June 27, 2019

[ Wallpainting ]



Mais uma incursão à "ilustração" de paredes…
Desta vez o suporte é a parede posterior da sala de produção da DigitalMix Música e Imagem.
A cena que representei tem por base um instantâneo imaginário decorrente numa cidade cosmopolita ocidental contemporânea.
Na rua está frio. Há uma névoa que torna o ar denso e reduz a nitidez das zonas distantes da perspectiva abrangente.
Numa esquina movimentada, uma street band faz mais uma das suas actuações… Há quem pare para ver o espectáculo.
Esta zona do quarteirão é preenchida por um grande cineteatro, possuidor de uma daquelas palas que, em toda a altura do seu perfil exibe, em grandes letras vermelhas, os nomes dos espectáculos/filmes que apresenta na altura.
Neste dia é a vez de "24 Hour Party People" – filme que relata a história da fase mais conhecida da vida do produtor Tony Wilson, com ênfase na criação do mítico clube musical de Manchester "Hacienda", e na sua editora "Factory Records", e que tão relevante papel teve nas carreiras de bandas como "Joy Division", "New Order", "Sex Pistols", "Durutti Column"…
Em primeiro plano é visível, quase a desaparecer pelo lado direito da imagem, um carro amarelo… talvez um taxi.
Mas a parte principal do boneco consiste na interacção entre o vocalista da banda e uma moça que percorre, decidida, o limite do passeio. Ele tirou respeitosamente o seu chapéu de abas da cabeça, e dirige à bonita transeunte ruiva de cabelos ao vento, uma vénia dedicada, enquanto continua a entoar para a assistência a letra da canção… Aparentemente indiferente a esta abordagem, ela segue o seu caminho, transportando à cintura, em jeito de homenagem/manifesto revivalista, o icónico walkman amarelo e azul repescado directamente dos anos 90 do século passado.
O cabo amarelo de áudio transmite aos seus delicados ouvidos a OST de "FlashDance"… é esse ritmo que lhe marca a passada e define o sorriso… a sua t-shirt ostenta, cravadas em lantejoulas, duas palavras que a definem, a ela, e em particular ao seu estado de alma neste dia – MISS MUSIC…

A impressão e aplicação estiveram a cargo da fantástica OCYAN.

Friday, June 21, 2019

[ Bela, a rainha má # 9 ]


"Mas um facho do sol de Maio, esgueirando-se pelas
nuvens cinzentas, veio fender o cristal do caixão onde eu
jazia. Saído da bruma, avançou ao meu encontro o príncipe
de sempre, guiando pela arreata uma égua branca, de crinas
que varriam as violetas do chão. Beijou-me os lábios,
correu-me o sangue nas veias, e respirei na vida que ao
meu corpo voltava."

Thursday, June 13, 2019

[ Bela, a rainha má # 8 ]



"E ali fiquei, sujeita às neves eternas que me secavam
as entranhas. Em meus sonhos perpassavam punhais, e uma
maçã num espelho. Sete anões avançavam do fundo da treva,
bufando de cólera, rebolando-se de riso, e a esguichar
imundícies pelo buraco de trás. Não cessavam as gralhas de
voejar, ensombrando-me o rosto quieto, e mais rosadinho do
que nunca, debaixo da tampa que me cobria.
"

Saturday, June 8, 2019

[ Bela, a rainha má # 7 ]



"E deitei-a numa tina de mármore, rasgando-lhe pulsos e
tornozelos com um estilete de oiro de lei. À medida que
a menina se esvaía em sangue, iluminada pelas tochas que
eu acendera, dissolvia-se-lhe o corpinho até por completo
se sumir. Meti-me naquele líquido, e deixei-me adormecer dentro dele."

Tuesday, June 4, 2019

[ Bela, a rainha má # 6 ]



"Pus-me a caminho, atravessei matagais, descortinei o
casebre, bati à porta, e entrei. A rapariga cozinhava
as papas que os anões apreciam, dessas que se comem com
colher de pau, e que neles provocam os puns com que tanto
se divertem. Estendi-lhe a maçã, e logo o gelo reocupou olugar do meu coração.

Mal a trincou, caiu Cinda morta, e as gralhas não
paravam de gritar por cima de nós."

Thursday, May 30, 2019

[ Bela, a rainha má # 5 ]



"À frente do espelho, e numa noite de Verão, botei-me a
saborear aquele fruto de maravilha. Uma chama crepitava
no meu ventre, e um rubor coloria-me as faces. A rainha
que eu olhava ia-se despojando do seu manto de damasco,
dos seus colares de brilhantes, e da própria coroa que lhe
cingia a fronte. E a que eu fora reaparecia, semelhante aCinda, a sorrir nos verdores da juventude."

Tuesday, May 28, 2019

[ Bela, a rainha má # 4 ]



"Partiu outra vez para a guerra o rei, meu marido,
e fiquei por meses e meses abraçada a mim mesma. No
anoitecer em que trouxeram a notícia da sua morte, varado
pela lança de um plebeu, houve chuvas abundantes que
vergastaram as macieiras. Rolaram por terra os frutos,
mas na árvore mais franzina manteve-se uma maçã, uma só.
Metade vermelha, e metade amarela, nunca eu vira tão
bonita. E colhi-a, acheguei-a à língua da víbora para quea picasse, e à cauda do lacrau para que a mordesse."