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Wednesday, May 22, 2019

[ Bela, a rainha má # 1 ]




"O meu príncipe beijou-me os lábios, e a luz de Maio
percorreu-me o corpo. Eram lírios e açucenas, espumas
do mar longínquo. Quebrou-se em estilhaços de cristal o
esquife onde eu dormira, mas uma estrela de gelo morava
dentro de mim. O que me despertara tomou-me pela mão, e
fomos andando em direcção ao palácio."


"Bela, A Rainha Má" é o titulo de um belíssimo texto de Mário Cláudio, publicado na Egoísta nr 66, com o tema "Era uma vez".
O texto é construído num registo fragmentado em pequenos excertos, através dos quais se desenvolve a sequência narrativa.
São breves ilhas de palavras, carregadas de uma certa aura poética, muito indutora de ambientes diversos ao longo da pequena estória.
A ideia que tive para ilustrar este texto foi a de construir um paralelismo formal com a estrutura do texto, através da criação de pequenos fragmentos de registo linear preto, jogando com a densidade da mancha para obter a caracteriação das formas.

Thursday, April 25, 2019

… a propósito do dia 25 de Abril [ Repost ]

REPOST de uma publicação anterior, no âmbito do 25 de Abril


A relação é simples e óbvia…
Mas, 
…frequentemente passamos ao lado desta evidência.
A imagem que aqui reproduzo ilustra uma ideia que, creio, importa absorver e digerir com URGÊNCIA. Essa digestão deve levar-nos imediatamente a agir no sentido de sustentarmos a base da democracia – o acesso por parte dos eleitores a informação séria, rigorosa e independente.
Existe numa faixa alargada de eleitores a ilusão de que o acompanhamento dos títulos e pequenas "notícias" que chegam até nós, por via do contacto diário e frequente com as diversas plataformas constituintes das redes sociais, e sites de informação sumária/destaques, constitui fonte suficiente de "informação" para construir e fundamentar as nossas opiniões. 
É também frequente a simples dedução de conteúdos de notícias a partir da mera leitura de um título com o qual se toma contacto através de um qualquer veículo comunicativo… Nada mais enganador.
É sabido que as vendas de jornais e revistas enfrentam uma realidade de declínio. 
Por outro lado, é fácil de deduzir que os mecanismos de visualização em diferido dos conteúdos audiovisuais informativos, permitindo ao espectador evitar os pesados blocos de publicidade que lhes estão anexados, não tardarão a alterar os padrões de aposta das marcas naquilo que é a compra de tempo de antena nos canais televisivos – dependendo das novas modalidades que vierem a ser encontradas, essa alteração poderá, a médio prazo, constituir um pesado golpe desferido contra a sustentabilidade das redacções informativas existentes nos canais de televisão.
Vivemos actualmente um período desafiante… a vários níveis. Todos sabemos.
Defendo que é fundamental racionalizar individualmente este tipo de considerações, e, como em outras áreas em que nesta fase peculiar da história da humanidade o cidadão anónimo é chamado a agir, de si dependendo o rumo dos acontecimentos a nível global, optar então conscientemente por iniciar, JÁ, as acções que mais directamente gerarão mudança.
Nesta matéria, se nada fizermos, assistiremos ao fim do jornalismo fiável, e da investigação informativa séria e independente. As nossas opiniões serão débeis… frágeis, e totalmente vulneráveis à manipulação.
Assistimos já, na actualidade, às consequências destes mecanismos, através das polémicas acções de condicionamento de resultados de processos democráticos, através da introdução de ruído informativo nas redes sociais. Estes exemplos expõem, mais do que os processos de interferência, uma assustadora permeabilidade dos eleitores a este tipo de interferência.
Contudo, se sustentarmos um sistema informativo heterogéneo e independente, manteremos o acesso a informação credível… seremos impermeáveis às "verdadeiras" "fake news".
Esta salvaguarda está ao nosso alcance, e tem um preço reduzido. É possível assinar mensalmente a versão digital de um jornal diário generalista credível por aproximadamente 6 euros. O preço médio de um menú de fast food… por mês… 
pela Democracia.

Friday, April 19, 2019

Vieira de Castro _ 75 anos _ A História do Nosso Sabor


"Desculpa-me avô…
Ainda hoje não consigo enunciar os nomes de todas as ruas, perpendiculares e paralelas, sem hesitações, e na ordem correcta… do percurso de casa até à Versailles. Isto apesar do teu gigantesco esforço…
… mas MUITO obrigado."

Os momentos em que crianças acompanham adultos em romarias para aquisição de guloseimas em quadras festivas, é positivamente marcante para as referidas crianças, e eventualmente para os referidos adultos.
Esses contextos são já por si festivos, o que ajuda à existência de um ambiente favorável ao armazenamento e preservação de memórias positivas.
Para tal, também contribui o facto de as ditas romarias terem como objectivo, trazer para casa nutrientes, regra geral, altamente calóricos, e, carregadinhos de SABORES intensos : b
Em nossa casa essa tarefa cabia maioritariamente ao meu avô.
As motivações eram várias, e transbordavam abundantemente para fora das quadras festivas, embora estas estivessem de facto associadas a picos de intensidade desta práctica.
Nesse capítulo, o Natal reunia forçosamente o maior número de iguarias, e consequentemente, de respectivas romarias gulosas. O maravilhoso bacalhau da av. da igreja, cortado em deliciosas postas altas, que eram depois cozidas no ponto, e saboreadas com grão e cove… ou o delicioso bolo-rei da Versailles, preferencialmente para o mal cozido… Uau.
Estas iguarias, adicionadas a outras, também maravilhosas mas de fabrico caseiro, geralmente confeccionadas em animados serões, encontravam-se à mesa da consoada, cercadas pela família em intensa comunhão… Que sonho.
Agora é Páscoa. Por esta altura a romaria era às diferentes variedades de amêndoas, com que se enchiam pequenas taças, que viviam a quadra em cima da mesa, sendo debicadas a cada passagem pela casa-de-jantar.
Muitas vezes estas deslocações tinham como objectivo original o mero acto de passear, e a aquisição de guloseimas surgia como um delicioso acidente de percurso. Disso eram exemplo os maravilhosos almendrados do "2000", ou, dessa mesma pastelaria do campo-pequeno, os fantásticos petit-fours.
Tantas vezes que os nossos passeios a pé se fizeram por aí.
Esses passeios diários do meu avô, a pé por Lisboa, constituíam um ritual que na família lhe está indelevelmente associado.
Fruto dos meus horários na escola, essencialmente matinais, eu tinha a sorte de ser repescado para essa actividade com grande regularidade, e, nesses dias, esses passeios assumiam para si uma dupla função. Além do exercício físico que possibilitavam, o meu avô via nesses momentos a oportunidade de me instruir no conhecimento profundo do desenho e articulação das ruas da cidade, bem como nos seus respectivos nomes. Assim, cada cruzamento era acompanhado pela pergunta:
"… e esta, como se chama?…"

Saturday, March 30, 2019

[ Chegou livro ; ) ]

Recebemos recentemente na 004 mais uma remessa da Norprint…
Cada envio deste nosso parceiro de produção é por nós acolhido como se de prendas se tratasse. A Norprint está, pelo rosto das pessoas incríveis que a compõem (Lopes Castro, Jorge Moreira, e tantos outros), ligada à feliz conclusão de boa parte dos nossos trabalhos. Assim, ver entrar pela porta, aquelas caixas de cartão com a mira gráfica apontada a Norte, constituinte do símbolo da belíssima assinatura da empresa, é sempre uma alegria.
Esta última remessa trouxe uma leva de livros contendo textos da Patrícia Reis e ilustrações minhas. Abri então a primeira destas caixas com uma curiosidade acrescida.
Uau… O livro está impecável. 
A impressão, como sempre… bestial.
Ao longo de 144 páginas de papel uncoated viaja-se no tempo, por uma colectânea de textos da Patrícia aos quais se encontram associadas ilustrações minhas. Algumas destas ilustrações foram concebidas para outros textos, ou para textos nenhuns, e, nesses casos, agora encontram aqui par… algumas foram concebidas há muito tempo. Alguns destes textos têm também bastante tempo… outros são muito recentes… 
…daí a viagem no tempo
Por ideia da Patrícia, e através de mais uma parceria editorial 004/Norprint surge então este volume que funciona também, um pouco como um catálogo de evoluções linguísticas dos nossos trabalhos (escrito e desenhado).
A minha primeira ilustração construída com a linguagem que actualmente mais utilizo, e que consiste em desenhar à mão livre, com caneta preta, e posteriormente aplicar cor digital, foi criada com um forte empurrão da Patrícia. Para quem a conhece, esta referência não será estranha, e saberá que está relacionada com a impulsividade desenfreada que constitui uma das características que lhe estão associadas, e que tão frequentemente dá origem a ideias e soluções loucas e fantásticas, tão incrivelmente desligadas das âncoras e grilhetas da realidade do quotidiano.
Pois então essa impulsividade desenfreada influenciou de forma decisiva o meu trabalho de ilustrador, através de um desafio (leia-se intimação), para ilustrar "Artur Leite – Pai de uma menina", texto de Agustina Bessa-Luís publicado na Egoísta nr 5, edição dedicada ao tema "Saudade". 
A dimensão da relevância deste desafio no meu percurso percebe-se, a partir do momento em que eu refiro que até então nunca tinha aplicado cor digital num desenho meu. Na verdade, até então, o meu trabalho de ilustrador estava restrito a ilustrações a preto e branco com sombreados de aguadas cinzentas, ou alguns raros exemplares de coloração com ecoline.
Ora, a ilustração que fiz para "Artur Leite Pai de uma menina" representou nada menos que, uma ruptura radical com tudo o que tinha feito até aí, e abriu a porta à linguagem que utilizei na maioria do trabalho de ilustração que desenvolvi nos 18 anos que se seguiram. Essa "r"evolução deu-se como resposta a este desafio impulsivo da Patrícia, desafio esse pelo qual lhe estou profundamente agradecido.

Ao longo destes 18 anos descobrimos que gostamos de associar talentos e produzir conteúdos em parceria comunicativa… As palavras da Patrícia comunicando com os meus bonecos, e vice versa. Para mim, um dos pontos altos desta colaboração resultou numa associação entre um belíssimo texto seu, chamado "A sopa", e uma ilustração minha datada de 2002, concebida para esse texto no âmbito da exposição "No quarto escuro", e agora repescada para as páginas 22 e 23 deste nosso livro (reproduzidas acima).
Muitas outras se seguiram… Algumas em formato de livro, outras sob a forma de pequenas BDs publicadas na Egoísta, e agora também reunidas nesta edição.
Deste livro fazem também parte duas BDs nas quais, além das ilustrações, fui também autor dos textos, exercício que me agradou imensamente, e que mais uma vez só foi possível graças à visão livre e descompartimentada com que a Patrícia encara os convites que faz para as colaborações da Egoísta. Estas duas BDs publicadas nas Egoístas "Liberdade" e "Traço", foram construídas em torno de referências visuais e textuais à existência turbulenta da alma humana. Pelo facto de me obrigarem a explorar e trazer novas vertentes para o meu trabalho, constituíram também pontos relevantes no meu percurso de ilustrador…

OBRIGADO Patrícia… OBRIGADO Norprint ; )

Saturday, March 9, 2019

[ O Flautista de Obliscor ]



"Durante toda a noite tocou a sua flauta limb. E aquela música foi-se estendendo noite adentro, como luz suave, a entrar nas casas de todos os habitantes de Obliscor. Era uma melodia um tanto hipnotizante, um tanto enigmática que parecia vir de tempos muito antigos, de um país muito distante, onde, talvez a morte nunca tivesse chegado e permanecido. Era impossível fechar os ouvidos e todo o sentir àquelas ondas sonoras tão leves e vítreas."

Excerto de um texto de Marta Duque Vaz, publicado na edição de Dezembro 2019 da revista Egoísta

Thursday, February 28, 2019

Vieira de Castro _ 75 anos _ A História do Nosso Sabor


Ilustração alusiva à forma como o bolo rei era "formatado" nas origens do processo produtivo da histórica empresa Vieira.
… a abertura central era de facto feita com o cotovelo do "técnico".
As tarefas fisicamente mais exigentes, como o manuseamento e transporte das massas, eram executadas por homens. Às senhoras estavam reservadas outras etapas da produção, relacionadas com a colocação de frutas e decoração final do bolo rei.

Wednesday, February 13, 2019

[ O capuchinho vermelho ]





Então cá vai uma narrativa autobiográfica…
Corria o ano de não sei quando… Era eu – o personagem principal desta história – um muito tenro jovem de uns 12 ou 13 anos. Esta avaliação não é de todo precisa, e tem por base estimativas relacionais com outros eventos, ocorridos alguns anos mais tarde. A minha idade na altura é então assim calculada com base em somas e subtracções cronológicas aproximadas, em relação a eventos outros, felizmente mais marcantes, nos quais a minha idade era mais relevante, e como tal mais facilmente estimável.
Nesse tempo, o meu pai vereava o pelouro da cultura na câmara municipal de Évora. As minhas férias escolares contemplavam sempre uma deslocação até ao Alentejo para a habitual visita filial.
Durante as estadias dessa fase, o meu pai nem sempre conseguia férias, ou até tempo livre. 
Tive a minha quota parte de jantares oficiais e eventos de representação, facto que recordo com satisfação. Foram momentos engraçados.
Mas também passei muito tempo sozinho, vagueando pela cidade e arredores.
Fui algumas vezes ao cinema, às sessões da tarde do desaparecido Eborim, primeiro centro comercial da cidade, com as suas "fantásticas" salas 1 e 2, no qual, a bem da facturação do dia, não se perguntava a idade aos compradores de bilhetes, tornando irrelevante a classificação etária associada aos filmes em exibição.
No verão, durante o mês de Junho, decorria a feira de S. João, no Rossio de S. Brás. Essas noites eram de alegria. A feira, como evento marcante de uma cidade alentejana de grande dimensão, misturava uma componente agrícola (animais, alfaias e máquinas de grande porte) com a abordagem cultural da região (ranchos de folclore e mostras de gastronomia regional), e ainda as diversões típicas deste tipo de feiras (carrosséis, carrinhos de choque, farturas, etc.). 
Durante a tarde, com temperaturas já bastante elevadas, o grande terreno da feira era um recinto algo bizarro. Toda a animação nocturna estava desligada. Muita daquela gente feirante dormia a sesta, descansando da agitação da madrugada anterior, e preparando-se para a da noite vindoura. 
A luz do dia tornava a enorme área de implantação do evento num grande emaranhado de puxadas de electricidade, extensões eléctricas, contadores e quadros improvisados, alimentando uma cidade de rulotes e atrelados… à tarde tudo isto era varrido pelo cheiro a polvo e torresmos grelhados.
Este enorme acampamento heterogéneo virava um labirinto propenso a situações pitorescas e encontros estranhos. Jamais esquecerei a minha experiência voyeur em que no anonimato proporcionado pelos planos desencontrados de rulotes, assisti por acidente, a um muito jovem ciganito beijando recorrentemente na boca uma ainda mais jovem e chorosa ciganita, que claramente incomodada, mas indefesa, nada podia para pôr fim àquele abuso muito pouco infantil. Recordo-me de ter sentido uma profunda má disposição física abdominal… imagino que como se tivesse acabado de presenciar o consumar de uma violação. Perto desta cena estavam dois adultos recostados em cadeiras "de praia", aproveitando a sombra de um pano estendido entre 4 prumos… nada fizeram para pôr termo a esta brincadeira.
Lembro-me também de forma muito nítida do casal chinês, de idade avançada, que possuía uma pequena barraca de gelados de máquina. Passei bastante tempo à conversa com o senhor chinês, durante algumas tardes, enquanto ele montava o aparato feirante para a noite que se aproximava. Eu era mais ou menos adoptado durante um bocado da tarde, num relacionamento de curiosidade e reconhecimento mútuos.
Visitei alguns monumentos, e claro, percorri a pé ou de bicicleta, as ruas da cidade e respectivos jardins…
Foi nessa altura que descobri que os jardins pouco frequentados são um pólo de atracção de vários tipos de transviados sociais.

O jardim municipal de Évora é grande. Encontra-se maioritariamente intra muralhas da cidade, e distribui-se por dois grandes níveis. Em baixo, desenvolve-se em áreas amplas, com pouca vegetação. Em cima, envolve o Palácio de D. Manuel e estende-se por intrincados caminhos de terra batida, ladeados por manchas de vegetação frequentemente densa. À boa moda dos jardins inspirados no romantismo, também este é possuidor de inúmeros recantos vegetais onde se decidiu implantar bancos de pedra, ou da tradicional tipologia pés-de-metal-preto-a-imitar-troncos, sustentando estes, grossas tábuas de madeira verde.
Na face sul do jardim, no patamar superior, à beira do limite imposto pela muralha que aí tem pouco mais do que a altura da cintura, existe um desses recantos introspectivos. Esse recanto tem dois bancos de pedra, ambos posicionados perpendicularmente à referida muralha, e de frente um para o outro. Entre ambos encontra-se uma grossa mesa redonda, toscamente esculpida em pedra.
Numa das tardes em que nenhum outro programa se me apresentava como melhor, lá me embrenhei no emaranhado verde. Como sempre, durante bastante tempo estive sozinho. Caminhei sozinho pelos caminhos de terra batida… deambulei sozinho pelos limites da muralha.
Muito raramente alguém se cruzou comigo.
Chegado a este recanto, o tal da mesa de pedra, o enquadramento pareceu-me fantástico e altamente convidativo a uma paragem contemplativa. Pela sua posição mais elevada optei por me sentar em cima da mesa, de pernas cruzadas, virado para sul, ou seja, com vista para uma parte da cidade, contemplada por cima da muralha que dava por, um pouco acima da cintura.
Tinha o corpo à sombra… a alma tranquila.
Assim estive durante um bocado, até que…
…nessa tarde o lobo mau sentou-se ao meu lado.
…ocupou o banco de pedra situado à minha esquerda, ficando sentado de frente para mim..
Quando o lobo mau surgiu num dos caminhos que davam acesso ao local em que eu me encontrava, naturalmente orientei o meu olhar na sua direcção.
Ele teria entre 55 e 60 anos, possuía uma estatura mediana, para o baixo, usava óculos, e dirigiu-me também um olhar, o qual classifico como desconfortavelmente demorado, levando-me a mim a olhar para outro lado.
O facto de eu me encontrar sozinho num local semi-deserto, e alguém aparecer, decidindo sentar-se a cerca de dois ou três metros de mim, virado de frente para a minha pessoa, foi, obviamente, suficiente para fazer soar um forte sinal de alerta.
A partir desse instante toda a minha atenção ficou concentrada na informação proveniente da minha visão periférica, gerada pelo meu olho esquerdo.
O meu rosto permanecia no entanto direccionado para a frente, dirigido à ampla vista do lado sul da cidade.
O lobo mau, por seu turno, olhava na minha direcção.
Cada segundo daquele momento me pareceu infindável. 
Eu não sentia medo. Sentia sim um enorme desconforto, e sentia-me também afrontado…
Encarava como um enorme abuso o facto de aquele indivíduo saltar sobre todos aqueles obstáculos sociais, e ter assim o descaramento de se ir posicionar ali, ao meu lado, virado para mim, afrontando-me com o seu olhar ostensivo e insistente.
Em mim crescia silenciosamente uma certa ira motivada por aquele intrusivo abuso… Como é que ele se atrevia?…
A dada altura o braço direito do indivíduo moveu-se… A sua mão direita assentou demoradamente sobre uma determinada parte do corpo, criando assim um contexto incompatível com a presença num local público… a sua mão demorou-se aí.
Para mim tornou-se bem claro que era altura de me ir embora. Desci de forma enérgica e segura do meu posto de contemplação sobre a mesa, e, sem voltar a olhar directamente para o indivíduo, iniciei o meu afastamento na direcção oposta àquela da qual ele tinha vindo.
Após um número de passos considerável olhei para trás. Sem grande surpresa constatei que o lobo mau vinha no meu encalço.
Terei dado mais alguns passos, certamente em ebulição crescente, até assumir um modo operativo que já conheço em mim de outras situações na vida... é caracterizado por eu assistir a acções que o meu corpo desempenha sem consultar a razão.
O meu corpo ostensivamente parou…
Ostensivamente baixou-se…
Ostensivamente apanhou um pedregulho de dimensões adequadas ao encaixe e preenchimento da palma da mão direita disposta em concha…
e ostensivamente, virou-se para trás…
O lobo mau estava também parado, imóvel, surpreso… Fazia o que os lobos fazem perante a contrariedade… analisava o contexto e as alternativas que se lhe apresentam.
O lobo mau deu meia volta, e voltou a trote para de onde tinha inicialmente vindo…
Nessa tarde, tudo podia ter corrido mal, muito muito mal… 
… mas à semelhança do pequeno capuchinho vermelho referido no texto de Lídia Jorge, também eu tive sorte.

Friday, February 1, 2019

[ Oferta de Natal _ VIEIRA _ 2018 ]



2018 foi o ano em que a empresa VIEIRA comemorou os seus 75 anos de existência. Este aniversário evocou o mérito empreendedor e os enormes dinamismo e visão do fundador,  António Vieira de Castro, e, celebrou o crescimento e a afirmação da empresa, impulsionada pelos seus descendentes e colaboradores, tornando-a na marca incontornável que é hoje.
Eu tive a honra de ver o meu trabalho associado a esta efeméride, através de colaborações em algumas peças de comunicação produzidas pela 004 ao longo do ano.
Pelo natal, a empresa ofereceu aos seus colaboradores e amigos um belíssimo pack desenhado na 004, pela mão da designer Joana Miguéis. Este presente era constituído por uma lindíssima caixa, contentora de duas embalagens de deliciosas bolachas de água e sal (e azeite :b ), e de uma reprodução de um desenho meu representando dois pacotes da histórica bolacha de água e sal VIEIRA (versão tradicional).
O desenho foi feito com canetas de tinta da china preta, sobre um fantástico papel texturado, dando forma à representação dos volumes pela construção de manchas de diferente densidade de traçado.

Monday, January 21, 2019

+ Papel em branco


Já se escreveu neste blog acerca da forma estranha como porções de papel em branco são possuidoras de atracção magnética, com especial e particular incidência sobre canetas Sakura Micron, com tinta preta, e, de um modo geral, sobre materiais riscadores da mais variada espécie e feitio.
Não há muito mais a acrescentar, excepto sobre o facto de que, tudo o que sobre isso foi dito, corresponder à mais pura verdade.
Nem que seja apenas para um esboço.

Tuesday, January 8, 2019

The Girl who Played with Fire #3



Com três leves toques de biqueira da sua bota direita, a criança pede a atenção de seu pai…
"… e depois despeja-lhe o destino por cima."

Lisbeth Salander e o seu progenitor não se cosiam… 
Percebe-se, certo?
O senhor não era propriamente a pessoa mais amistosa do mundo. A relação paternal não tinha no carinho o seu sentimento predominante, a sua característica mais evidente. 
Além disso, a forma como o pai tratava a mãe (essa sim, uma pessoa muito querida por Lisbeth), também não ajudava ao estreitamento da relação entre filha e pai. As agressões constantes, físicas e verbais, a sabotagem emocional... a simples postura de dominação permanente, total, incontornável… 


O animal tinha a família bem presa por trelas curtas, com picos e estranguladores.
De tempos a tempos, um bom puxão para pôr tudo em sentido, hmmmm…

Até hoje.
... hoje a sua atitude mudou... 


O natal é para mim uma altura de afrontamento profundo perante a quantidade de amigos e conhecidos que me relatam desavenças sérias, incompatibilizantes, e frequentemente insolúveis, com determinados familiares. 
… e digo, de afrontamento profundo, porque valorizo imensamente a fórmula do natal passado em união familiar, em construção activa de um ambiente de harmonia, e afectuosa partilha intergeracional. Para tal contribui certamente o facto de ter eu sido abençoado com a experiência disso mesmo – na pele, e em todas as camadas existentes da pele até ao coração – desde os serões de preparos culinários que antecediam a noite de 24, até ao desmontar do tripé de apoio que sustentava a árvore de natal, antes de esta ser enfiada, toda dobradinha e enrolada em cartão e cordeis, até ao natal seguinte, no armário do corredor, por cima do roupeiro grande.
Pois então amigos e conhecidos relatam-me que os seus natais se encontram mutilados por estas desavenças com os tais "determinados" familiares, AOS QUAIS, estão "unidos" genéticamente com maior ou menor proximidade, mas DOS QUAIS, se encontram afectiva e socialmente afastados, com diferentes graus de distanciamento.

Um somatório de tristes descarrilamentos nas linhas da vida de um mar de gente, 
… frequentemente para sempre.

Mas estas considerações sobre os paralelismos e as interceções, as tangentes e as secantes dos traços da genética, querem mesmo é conduzir este texto, de forma subtil e dissimulada, às temáticas fracturantes da actualidade.


Deus, Pátria e Família

Então... por ordem inversa, pela lógica do encadeamento com o que já foi escrito sobre diferentes dinâmicas familiares. 
A "família" soante nos discursos destes novos ventos políticos do mundo conservador não promete futuro. 
Promete sim retrocesso… retroceder de rastos. 
"Família" não é coisa que se imponha à força do discurso político. "Família" cultiva-se com muito cuidado, carinho e dedicação, e só está, e estará acessível, a muito poucos bons jardineiros. 
Quando calhar nascer estragada não será por decreto de campanha que vai vingar e tornar-se unida saudável e luminosa. Não se impõe a nações através de discursos absolutistas.
"Família" no entrelinhamento destes manifestos soa a família que se mantém junta nem que seja à pancada… e essa… queremo-la nós saudávelmente separada.

Mas este discurso tem mesmo grandes planos é para as suas amadas pátrias.
Curiosamente, todas as pátrias que subscreverem estas políticas deverão rápidamente (segundo as aspirações dos seus oradores) ascender ao lugar primeiro na Nova Ordem Mundial…
mmmmm… mas será ex aequo???
… mas para isso será necessário passar um pouco ao lado da noção de que, na realidade, a solução dos grandes problemas da humanidade passa mesmo é por mais concertação, articulação, partilha e nivelamento inter/nacional, como forma de sanar assimetrias brutais de diferente índole, inerentes a factores naturais, ou criados pelo homem, que condicionam negativamente o desenvolvimento de uns, e favorecem injusta e positivamente o desenvolvimento de outros… (a título de nota é de recordar que a vida no planeta está à beira do colapso, em contagem decrescente acelerada, dependendo a sua sobrevivência da resolução urgente e concertada, de alguns desses problemas inter/nacionais).

Mas o primeiro alicerce obrigatório deste discurso é Deus
O que não deixa de ser curioso porque normalmente este discurso também assenta em políticas sociais e económicas que estão longe de ser as mais integrativas, niveladoras e equitativamente distributivas. Se a relação entre estes dois pilares (Deus e política) não for evidente, recomendo humildemente a leitura do best seller internacional (e porque o ocidente conservador está historicamente conotado com as religiões Cristãs), chamado Novo Testamento – querendo uma versão reduzida, poder-se-á, sem grande penalização para a assimilação da essência da mensagem, optar apenas por qualquer um dos relatos de um dos 4 apóstolos – mais uma vez humildemente, recomendo… João.

A associação destes três conceitos (Deus, Pátria e Família) à fundamentação de algumas opções políticas da actualidade, não nos vai conduzir à realidade que precisamos desesperada e urgentemente de alcançar no futuro (próximo), e é mais adequada ao discurso de um museu de antropologia do que a um parlamento nacional do mundo civilizado.
Há que acordar... rápido.
Enquanto tijolos nas paredes da democracia temos o direito e a obrigação de andar informados. Brevemente seremos chamados a participar de grandes decisões, e, se não estivermos bem informados, seremos  vulneráveis peões nas mãos de manipuladores hábeis e dissimulados... Isso já aconteceu... muito perto de nós e há bem pouco tempo.
Por aproximadamente 6 EUR por mês, é possível assinar digitalmente um jornal generalista diário, e assim cimentar, ou construir opiniões, e simultâneamente ajudar a sustentar activamente uma fonte de jornalismo credível e independente, base de uma democracia sólida e saudável.
Há que fazê-lo, por favor, agora…

Friday, December 28, 2018

Dezembro 2018 _ durante a "Grande Aceleração" do "Antropoceno"



Aproxima-se mais uma daquelas metas que estabelecemos como importantes na contagem do tempo. Nos últimos 5 ou 6 dias as noites tiveram mais ou menos a mesma duração. A partir daqui os dias recomeçam a crescer. Daqui a dois mesitos as temperaturas começarão a aumentar de forma evidente e num saltinho parecerá ser verão antes do tempo, novamente.
Mas aqui, de onde estamos no calendário, celebramos a passagem de mais uma ano.
Um ano, no curto espaço de tempo disponível para a mudança urgente, é muito tempo.
A somar à evidente enorme incapacidade/indisponibilidade para vermos as coisas pelos olhos dos OUTROS, com reflexo no avanço dos ideais extremistas e da intolerância no mundo ocidental, soma-se agora outra evidência comportamental… a incapacidade de vermos as coisas pelos NOSSOS próprios olhos.
O objectivo climático global dos 1.5° Celsius, ou até o horizonte de 2° Celsius (que fará vários parâmetros problemáticos quase duplicarem de gravidade em relação ao objectivo de 1.5°C) começa a parecer uma miragem inalcançável… e as miragens são fenómenos típicos das travessias de desertos tórridos.
Se constatarmos mesmo que o que queríamos ser a realidade, não passa afinal de uma miragem inatingível, será um muito mau sinal, e dirá algo trágico sobre o panorama em que nos encontramos nessa altura.
Mas por agora… está aí o Réveillon, as galas finais de importantes programas televisivos com forte impacto na sociedade, os saldos em grandes e pequenas marcas, e várias excelentes oportunidades de aquisição de bens. Importará também saber quem passou o ano onde, e com quem… e o que tinha vestido… e quais as antevisões para o próximo ano em várias áreas importantes – Quais os carros novos que as marcas vão libertar neste próximo ano, os aguardados upgrades à playstattion, e ainda os novos modelos de telefones da Samsung – 2019 promete ser revolucionário.

Sunday, December 16, 2018

The Girl who Played with Fire #1






O universo da versão americana do filme The Girl with the Dragon Tatoo (série Millennium – Stieg Larsson), habitou espalhafatosamente o meu imaginário durante as semanas seguintes ao seu visionamento.
Nos tempos que se seguiram, de tão fantástica que tinha achado a fórmula do primeiro filme, desejei ardentemente a vinda de um segundo, de continuação, realizado por Fincher, e, com os mesmos actores principais, Rooney Mara e Daniel Craig.
Fiz várias incursões à internet profunda à procura de notícias, indícios ou até leves rumores que fossem, do mais pequeno sinal de que tal iria acontecer. A cada pesquisa sem sucesso era confrontado com uma realidade incompreensível e difícil de aceitar – não fazia sentido.

Sempre gostei de filmes bons em que "se faz justiça". No The Girl with the Dragon Tatoo de Fincher fiquei fascinado com vários aspectos. As personagens, os ambientes, a caracterização, a cinematografia… e a forma brilhante como aquela fantástica moça franzina, de personalidade magnética e habilidades multi-facetadas, distribui "justiça" por vários quadrantes… Uau, que carisma.
É de facto lamentável que todo aquele potencial criativo materializado naquela equipa, não tenha transbordado para mais um filme. Ainda hoje tenho dificuldade em aceitar.

Quando a Patrícia Reis e a Sara Fortes da Cunha me falaram na ideia de trabalhar sobre a personagem de Lisbeth Salander para o tema Fogo da Egoísta achei imediatamente fantástico. Maravilha.
Os três partilhamos o fascínio pela personagem principal.
Estavam focadas no episódio em que a pequena Lisbeth incendeia o pai (relação com o tema da edição), narrado no livro com o sugestivo título The Girl who Played with Fire que adoptámos para título da nossa BD. Tudo acontece após Lisbeth encontrar a mãe caída no chão, debilitada para o resto da vida, após mais um episódio de violência física extrema protagonizado pelo pai…
Ia fazer-se justiça…
Na sequência deste episódio é que Lisbeth fica em maus lençóis com a lei, e vê a sua vida assombrada pelo rastejante agente de controlo, nomeado pela segurança social, no peito do qual ela vem legitimamente a tatuar – "I'm a sadistic pig, a pervert and a rapist".
A Patrícia construiu engenhosamente a narrativa de forma a que a jovem Lisbeth, ainda criança na estória original, apareça na nossa versão no corpo de uma adolescente com outra capacidade física – Lisbeth menina, atormentada pelo dia-a-dia de terror imposto pelo pai, sonha com esta cena visualizando-se a si própria já mais velha.
Esta estrutura narrativa permite assim também, a adopção de toda a fascinante caracterização de que a Sara foi consultora. As pinturas faciais, as pulseiras, o colar, os piercings, as tatuagens etc.
Obrigado a ambas por deixarem para mim a fantástica tarefa de cozinhar livremente com todo este património de ingredientes fascinantes.

Gosto muito da frieza visual dos dias nublados da europa do norte. Muito possivelmente porque moro num país de clima temperado, que permite os primeiros mergulhos no mar por volta de Fev/Mar e os últimos em Out/Nov… Mas, que gosto, gosto…
Mesmo neste país de clima temperado, não só não dispenso, como recomendo vivamente, a experiência de um passeio às entranhas selvagens dos caminhos enlameados da serra, numa boa tarde nublada e chuvosa – com máquina fotográfica, e, roupa e calçado impermeável como notas de rodapé (se esse programa for seguido de um chá quente com queijadas regionais terá tudo para ser recordado por muito tempo) ; )
A ausência de sol nivela e harmonisa as cores, potenciando boas conjugações cromáticas. Tudo é coberto por uma suave velatura azulada.
Essa luz azul e fria apresentou-se logo nas primeiras imagens que me vieram à cabeça. Em todos os desenhos existe uma dominante cromática que me agrada muito.

*

Lisbeth avança em direcção ao carro. O que tenciona fazer não resulta de um plano elaborado… não… é mais a resposta física que é possível  ao seu corpo franzino naquele momento. A escolha das ferramentas de acção foi decidida em breves instantes, e em função do que havia à mão, mas a capacidade destrutiva que a orientou foi adoptada por indução de anos intermináveis vendo a sua mãe ser espancada…
literalmente a assistir… sem nada poder fazer.
Enquanto estreita a distância que a separa do monstro não quer que o seu olhar a denuncie nem o provoque.… olha para o chão… e esconde atrás de si a gasolina e os fósforos. É fundamental o efeito surpresa.
A cada passo que dá, algo profundo em si questiona a sua determinação… mas algo mais forte a impele a acelerar… a ganhar balanço para saltar para o capôt e com apenas mais um passo alcançar o tejadilho.

Com três leves toques de biqueira da sua bota direita, a criança pede a atenção de seu pai…
"… e depois despeja-lhe o destino por cima."

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Saturday, September 29, 2018

Egoísta 65 _ Fronteira



A Egoísta 65 já anda por aí.
O tema desta edição é "Fronteira".

Para a capa da edição concebi uma ilustração fotográfica a partir de uma reprodução de um enquadramento d'A criação de Adão, pintada no tecto da Capela Sistina entre 1508 e 1512, por Miguel Ângelo, por encomenda do papa Júlio II. Trata-se da mão de Deus, descendo de dedo esticado sobre a mão de Adão, que lhe dirige também a sua mão, de baixo para cima. Quase se tocam.
Entre Deus e o homem, separando-os, corre uma fiada de arame farpado.
Esta ideia, vá-se lá saber porquê, assaltou-me por volta das 5 da manhã, quando, em condições normais, deveria estar ferrado a dormir...
Mas desta vez a insónia deu frutos ; )

A um punhado de matéria orgânica terrestre, o Deus (o do dedo esticado que vem de cima) adicinou um outro punhado... o de uma amostra da sua divindade.
Essa segunda componente consiste nos menos de 2% que nos diferenciam (a nós, os do dedo esticado que vai de baixo) dos macacos, e explicarão o aumento exponencial da área neuronal do nosso cérebro para aproximadamente o triplo da do nosso parente mais próximo na cadeia evolutiva.
Esta oferenda permitiu-nos, com o nosso cérebro seis a sete vezes maior do que deveria ser, tendo em conta a nossa massa corporal, em muito curto prazo, subjugar todo o planeta aos desígnios dos nossos caprichos, MAS, mais importante, permitiu também o florescimento moral que reforça a nossa distinção em relação ao resto da criação.
Essa componente permitirá, a longo prazo, aos sobreviventes do colapso da humanidade, virem um dia a tornar-se verdadeiramente membros da irmandade celestial universal – harmoniosa, iluminada e embebida em esclarecimento, compreensão e partilha do divino.
Esse futuro não terá fronteiras e estender-se-á além planetas.
Passámos a conhecer a bondade de, tendo que matar para comer, optar por fazê-lo infligindo o mínimo possível de dor. Intuímos a pertinência do agradecimento pelo sacrifício do ser vivo cujo consumo nos permitia a nós continuar a viver, a troco da sua morte.
Comovemo-nos perante a harmonia de coisas simples que, para todo o resto da criação, apenas existem, ou estão lá como cenário para a sua existência.

Ao longo da história pensámos muito sobre tudo isto, com a cabeça e com o coração.
Ao nível das relações humanas, essa vertente permitiu todo o rol de comportamentos e intenções que vão desde o cuidado extremo para com aqueles de que gostamos, até à instituição e estabelecimento de direitos e garantias daqueles que muitas vezes nem sequer conhecemos, e que para nós enquanto indivíduos, muito frequentemente só existem enquanto construção mental, mas cujo direito à dignidade plena reconhecemos, prezamos e defendemos. Acordámos e inscrevemos nos manifestos universais que a guerra, a violência, a traição, a inveja, a ganância, o ódio e a falta de compaixão são coisas más.
Apesar disso, as nossas acções são muitas vezes orientadas por raciocínios, sentimentos ou intenções contrários a estas verdades universais.
No longo caminho a percorrer pelo homem-macaco, da escuridão da caverna para a luz, tem havido, continua a haver, e haverá durante muito tempo, várias inflexões.
Algumas são demarcadas por fronteiras, muros e barreiras.
A cada uma delas afastamo-nos mais um pouco do dedo criador.

Todos os primatas mais próximos do homem-macaco (dos quais se destacam gorilas, chimpanzés e bonobos) possuem 24 pares de cromossomas.
Para nos fazer, o Criador lançou-se numa empreitada de fusão genética, e desse conjunto de 24 pares de cromossomas escolheu matéria prima e criou o nosso misterioso cromossoma nr 2. A estrutura dos cromossomas possui uma construção física diferenciadora naquilo que são os seus extremos (telémeros) e os seus "meios" (centrómeros). O cromossoma nr 2 do homem-macaco tem então a particularidade única de, além de ter "dois meios" (centrómeros), ambos deslocados do centro para os extremos (???), ter também, ao centro, estruturas que deveriam estar nos extremos (telémeros). Este facto indicia claramente a união de duas unidades inicialmente separadas.
Este malabarismo genético explica também o porquê de uma espécie mais desenvolvida ser, aparentemente constituída por, à primeira vista, menos material genético (menor nr. de cromossomas dos humanos vs maior nr. de cromossomas dos restantes hominídeos).
Este malabarismo genético é claramente instável. Para o provar, se não bastarem as mais de 4000 anomalias genéticas possíveis de ocorrer no homem (creio que record no panorama da criação), bastará contemplar a curta história do homem-macaco "civilizado" –  demonstração máxima e bem ilustrada da referida instabilidade.

Estará aí então a receita da nossa instabilidade fervilhante?
– 98% de primata violento
– 1 mão cheia de divindade
– bater bem num qualquer liquidificador genético até aparentar homogeneidade convincente
– servir ao mundo, e fugir dali o mais rápido possível

A tal instabilidade revela-se actualmente a vários níveis e em diferentes círculos do nosso presente patamar evolutivo – o dia-a-dia em 2018.
Enuncio alguns exemplos rápidos apenas com o objectivo de contextualizar o que acabo de referir:
- Não é possível criticar a discriminação em função de género, raça, orientação sexual, etc. e não dirigir sequer um cumprimento à senhora africana que está a limpar o hall de entrada do prédio, ou ao senhor eslavo que está a recolher tabuleiros na área de restauração do centro comercial em que ingerimos uma refeição, no momento em que este aborda a nossa mesa.
- Não se pode defender o acolhimento europeu de refugiados chegados às costas do mediterrâneo e simultâneamente ignorar o pedinte romeno que nos interpela na rua, não lhe retribuindo com uma palavra, não lhe dirigindo sequer um olhar.
- Continua a ser impensável alguém gabar-se de "grab'em by the pu**y"' e chegar a ser presidente do país mais influente do mundo.
- É impensável chegar a ser presidente do país mais influente do mundo e passar o seu mandato a tentar incendiá-lo (o mandato, o país, o mundo).
- É inacreditável que o equilíbrio climático esteja à beira do colapso irreversível e ainda se discuta se isso é ou não uma questão.

A perplexidade com exemplos de instabilidade evolutiva retirados da actualidade, em diferentes contextos e círculos, poderia continuar a manifestar-se ao longo de uma looonga lista que não cabe neste blog, nem tem em mim a alma mais habilitada a enunciá-la, e muito menos a construí-la.

Mas então a capa da Egoísta…

O homem-macaco estacou…
À sua frente o feixe de luz no horizonte… a continuidade da evolução social e espiritual chamando alto pelo seu punhado de divindade. A bondade, a compreensão e o entendimento como objectivos diários.
Mas de trás de si também o chamam. Atrai-o o furdunço... ele gosta do frenesim em bando... do cheiro do sangue por debaixo das unhas. Virando-se ligeiramente contempla pelo canto do olho, novamente, o fundo escuro da caverna de onde provêm os urros.
Ali, parado onde está, precisa de ajuda. Não sabe o que decidir. Vindo de cima, um simples toque iluminado bastaria.
Mas entre o plano superior e o seu, há uma fronteira – a da sua confusão intermitente que não abranda, e cuja assinatura em papel mais se assemelharia à de um electrocardiograma, cheia de altos e baixos assanhados, como farpas e anzóis sem rebarba…
– são farpas de metal enrolado, mais parecendo… arame farpado.