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Saturday, July 20, 2019

[ O complexo de Cinderela ]


Ilustração para um belo texto de Tânia Ganho, publicado na EGOÍSTA "Era uma vez", com o título O Complexo de Cinderela.
O texto é sobre uma viúva com 65 anos, que, após uma vida de abnegação sentimental, decide recorrer ao sexo pago com um acompanhante masculino, opção essa que a conduz à amplificadora descoberta de uma paisagem física e emocional com contornos por si desconhecidos até então.

Friday, June 21, 2019

[ Bela, a rainha má # 9 ]


"Mas um facho do sol de Maio, esgueirando-se pelas
nuvens cinzentas, veio fender o cristal do caixão onde eu
jazia. Saído da bruma, avançou ao meu encontro o príncipe
de sempre, guiando pela arreata uma égua branca, de crinas
que varriam as violetas do chão. Beijou-me os lábios,
correu-me o sangue nas veias, e respirei na vida que ao
meu corpo voltava."

Thursday, June 13, 2019

[ Bela, a rainha má # 8 ]



"E ali fiquei, sujeita às neves eternas que me secavam
as entranhas. Em meus sonhos perpassavam punhais, e uma
maçã num espelho. Sete anões avançavam do fundo da treva,
bufando de cólera, rebolando-se de riso, e a esguichar
imundícies pelo buraco de trás. Não cessavam as gralhas de
voejar, ensombrando-me o rosto quieto, e mais rosadinho do
que nunca, debaixo da tampa que me cobria.
"

Saturday, June 8, 2019

[ Bela, a rainha má # 7 ]



"E deitei-a numa tina de mármore, rasgando-lhe pulsos e
tornozelos com um estilete de oiro de lei. À medida que
a menina se esvaía em sangue, iluminada pelas tochas que
eu acendera, dissolvia-se-lhe o corpinho até por completo
se sumir. Meti-me naquele líquido, e deixei-me adormecer dentro dele."

Tuesday, June 4, 2019

[ Bela, a rainha má # 6 ]



"Pus-me a caminho, atravessei matagais, descortinei o
casebre, bati à porta, e entrei. A rapariga cozinhava
as papas que os anões apreciam, dessas que se comem com
colher de pau, e que neles provocam os puns com que tanto
se divertem. Estendi-lhe a maçã, e logo o gelo reocupou olugar do meu coração.

Mal a trincou, caiu Cinda morta, e as gralhas não
paravam de gritar por cima de nós."

Thursday, May 30, 2019

[ Bela, a rainha má # 5 ]



"À frente do espelho, e numa noite de Verão, botei-me a
saborear aquele fruto de maravilha. Uma chama crepitava
no meu ventre, e um rubor coloria-me as faces. A rainha
que eu olhava ia-se despojando do seu manto de damasco,
dos seus colares de brilhantes, e da própria coroa que lhe
cingia a fronte. E a que eu fora reaparecia, semelhante aCinda, a sorrir nos verdores da juventude."

Tuesday, May 28, 2019

[ Bela, a rainha má # 4 ]



"Partiu outra vez para a guerra o rei, meu marido,
e fiquei por meses e meses abraçada a mim mesma. No
anoitecer em que trouxeram a notícia da sua morte, varado
pela lança de um plebeu, houve chuvas abundantes que
vergastaram as macieiras. Rolaram por terra os frutos,
mas na árvore mais franzina manteve-se uma maçã, uma só.
Metade vermelha, e metade amarela, nunca eu vira tão
bonita. E colhi-a, acheguei-a à língua da víbora para quea picasse, e à cauda do lacrau para que a mordesse."

Monday, May 27, 2019

[ Bela, a rainha má # 3 ]


"Numa ocasião, quando a ventania agitava a rama das
macieiras do pomar do palácio, estava eu diante do
espelho, um desastre aconteceu. Igual à marca da unha de
uma bruxa, uma ruga pequenina desenhava-se ao canto daminha boca real. Mas não se quedaria por aí o sobressalto."

Saturday, May 25, 2019

[ Bela, a rainha má # 2 ]



"Logo que me levantei, incapaz de conter a curiosidade,
coloquei-me diante daquela imagem, vestida com a camisa de
seda do Japão. E não demorou a que me reconhecesse, muito
menina, correndo numa floresta de heras e silvas. Fugia ao
verdugo que minha madrasta encarregara de me matar, mas que, apiedado de mim, me pouparia a vida."

Wednesday, May 22, 2019

[ Bela, a rainha má # 1 ]




"O meu príncipe beijou-me os lábios, e a luz de Maio
percorreu-me o corpo. Eram lírios e açucenas, espumas
do mar longínquo. Quebrou-se em estilhaços de cristal o
esquife onde eu dormira, mas uma estrela de gelo morava
dentro de mim. O que me despertara tomou-me pela mão, e
fomos andando em direcção ao palácio."


"Bela, A Rainha Má" é o titulo de um belíssimo texto de Mário Cláudio, publicado na Egoísta nr 66, com o tema "Era uma vez".
O texto é construído num registo fragmentado em pequenos excertos, através dos quais se desenvolve a sequência narrativa.
São breves ilhas de palavras, carregadas de uma certa aura poética, muito indutora de ambientes diversos ao longo da pequena estória.
A ideia que tive para ilustrar este texto foi a de construir um paralelismo formal com a estrutura do texto, através da criação de pequenos fragmentos de registo linear preto, jogando com a densidade da mancha para obter a caracteriação das formas.

Saturday, March 9, 2019

[ O Flautista de Obliscor ]



"Durante toda a noite tocou a sua flauta limb. E aquela música foi-se estendendo noite adentro, como luz suave, a entrar nas casas de todos os habitantes de Obliscor. Era uma melodia um tanto hipnotizante, um tanto enigmática que parecia vir de tempos muito antigos, de um país muito distante, onde, talvez a morte nunca tivesse chegado e permanecido. Era impossível fechar os ouvidos e todo o sentir àquelas ondas sonoras tão leves e vítreas."

Excerto de um texto de Marta Duque Vaz, publicado na edição de Dezembro 2019 da revista Egoísta

Wednesday, February 13, 2019

[ O capuchinho vermelho ]





Então cá vai uma narrativa autobiográfica…
Corria o ano de não sei quando… Era eu – o personagem principal desta história – um muito tenro jovem de uns 12 ou 13 anos. Esta avaliação não é de todo precisa, e tem por base estimativas relacionais com outros eventos, ocorridos alguns anos mais tarde. A minha idade na altura é então assim calculada com base em somas e subtracções cronológicas aproximadas, em relação a eventos outros, felizmente mais marcantes, nos quais a minha idade era mais relevante, e como tal mais facilmente estimável.
Nesse tempo, o meu pai vereava o pelouro da cultura na câmara municipal de Évora. As minhas férias escolares contemplavam sempre uma deslocação até ao Alentejo para a habitual visita filial.
Durante as estadias dessa fase, o meu pai nem sempre conseguia férias, ou até tempo livre. 
Tive a minha quota parte de jantares oficiais e eventos de representação, facto que recordo com satisfação. Foram momentos engraçados.
Mas também passei muito tempo sozinho, vagueando pela cidade e arredores.
Fui algumas vezes ao cinema, às sessões da tarde do desaparecido Eborim, primeiro centro comercial da cidade, com as suas "fantásticas" salas 1 e 2, no qual, a bem da facturação do dia, não se perguntava a idade aos compradores de bilhetes, tornando irrelevante a classificação etária associada aos filmes em exibição.
No verão, durante o mês de Junho, decorria a feira de S. João, no Rossio de S. Brás. Essas noites eram de alegria. A feira, como evento marcante de uma cidade alentejana de grande dimensão, misturava uma componente agrícola (animais, alfaias e máquinas de grande porte) com a abordagem cultural da região (ranchos de folclore e mostras de gastronomia regional), e ainda as diversões típicas deste tipo de feiras (carrosséis, carrinhos de choque, farturas, etc.). 
Durante a tarde, com temperaturas já bastante elevadas, o grande terreno da feira era um recinto algo bizarro. Toda a animação nocturna estava desligada. Muita daquela gente feirante dormia a sesta, descansando da agitação da madrugada anterior, e preparando-se para a da noite vindoura. 
A luz do dia tornava a enorme área de implantação do evento num grande emaranhado de puxadas de electricidade, extensões eléctricas, contadores e quadros improvisados, alimentando uma cidade de rulotes e atrelados… à tarde tudo isto era varrido pelo cheiro a polvo e torresmos grelhados.
Este enorme acampamento heterogéneo virava um labirinto propenso a situações pitorescas e encontros estranhos. Jamais esquecerei a minha experiência voyeur em que no anonimato proporcionado pelos planos desencontrados de rulotes, assisti por acidente, a um muito jovem ciganito beijando recorrentemente na boca uma ainda mais jovem e chorosa ciganita, que claramente incomodada, mas indefesa, nada podia para pôr fim àquele abuso muito pouco infantil. Recordo-me de ter sentido uma profunda má disposição física abdominal… imagino que como se tivesse acabado de presenciar o consumar de uma violação. Perto desta cena estavam dois adultos recostados em cadeiras "de praia", aproveitando a sombra de um pano estendido entre 4 prumos… nada fizeram para pôr termo a esta brincadeira.
Lembro-me também de forma muito nítida do casal chinês, de idade avançada, que possuía uma pequena barraca de gelados de máquina. Passei bastante tempo à conversa com o senhor chinês, durante algumas tardes, enquanto ele montava o aparato feirante para a noite que se aproximava. Eu era mais ou menos adoptado durante um bocado da tarde, num relacionamento de curiosidade e reconhecimento mútuos.
Visitei alguns monumentos, e claro, percorri a pé ou de bicicleta, as ruas da cidade e respectivos jardins…
Foi nessa altura que descobri que os jardins pouco frequentados são um pólo de atracção de vários tipos de transviados sociais.

O jardim municipal de Évora é grande. Encontra-se maioritariamente intra muralhas da cidade, e distribui-se por dois grandes níveis. Em baixo, desenvolve-se em áreas amplas, com pouca vegetação. Em cima, envolve o Palácio de D. Manuel e estende-se por intrincados caminhos de terra batida, ladeados por manchas de vegetação frequentemente densa. À boa moda dos jardins inspirados no romantismo, também este é possuidor de inúmeros recantos vegetais onde se decidiu implantar bancos de pedra, ou da tradicional tipologia pés-de-metal-preto-a-imitar-troncos, sustentando estes, grossas tábuas de madeira verde.
Na face sul do jardim, no patamar superior, à beira do limite imposto pela muralha que aí tem pouco mais do que a altura da cintura, existe um desses recantos introspectivos. Esse recanto tem dois bancos de pedra, ambos posicionados perpendicularmente à referida muralha, e de frente um para o outro. Entre ambos encontra-se uma grossa mesa redonda, toscamente esculpida em pedra.
Numa das tardes em que nenhum outro programa se me apresentava como melhor, lá me embrenhei no emaranhado verde. Como sempre, durante bastante tempo estive sozinho. Caminhei sozinho pelos caminhos de terra batida… deambulei sozinho pelos limites da muralha.
Muito raramente alguém se cruzou comigo.
Chegado a este recanto, o tal da mesa de pedra, o enquadramento pareceu-me fantástico e altamente convidativo a uma paragem contemplativa. Pela sua posição mais elevada optei por me sentar em cima da mesa, de pernas cruzadas, virado para sul, ou seja, com vista para uma parte da cidade, contemplada por cima da muralha que dava por, um pouco acima da cintura.
Tinha o corpo à sombra… a alma tranquila.
Assim estive durante um bocado, até que…
…nessa tarde o lobo mau sentou-se ao meu lado.
…ocupou o banco de pedra situado à minha esquerda, ficando sentado de frente para mim..
Quando o lobo mau surgiu num dos caminhos que davam acesso ao local em que eu me encontrava, naturalmente orientei o meu olhar na sua direcção.
Ele teria entre 55 e 60 anos, possuía uma estatura mediana, para o baixo, usava óculos, e dirigiu-me também um olhar, o qual classifico como desconfortavelmente demorado, levando-me a mim a olhar para outro lado.
O facto de eu me encontrar sozinho num local semi-deserto, e alguém aparecer, decidindo sentar-se a cerca de dois ou três metros de mim, virado de frente para a minha pessoa, foi, obviamente, suficiente para fazer soar um forte sinal de alerta.
A partir desse instante toda a minha atenção ficou concentrada na informação proveniente da minha visão periférica, gerada pelo meu olho esquerdo.
O meu rosto permanecia no entanto direccionado para a frente, dirigido à ampla vista do lado sul da cidade.
O lobo mau, por seu turno, olhava na minha direcção.
Cada segundo daquele momento me pareceu infindável. 
Eu não sentia medo. Sentia sim um enorme desconforto, e sentia-me também afrontado…
Encarava como um enorme abuso o facto de aquele indivíduo saltar sobre todos aqueles obstáculos sociais, e ter assim o descaramento de se ir posicionar ali, ao meu lado, virado para mim, afrontando-me com o seu olhar ostensivo e insistente.
Em mim crescia silenciosamente uma certa ira motivada por aquele intrusivo abuso… Como é que ele se atrevia?…
A dada altura o braço direito do indivíduo moveu-se… A sua mão direita assentou demoradamente sobre uma determinada parte do corpo, criando assim um contexto incompatível com a presença num local público… a sua mão demorou-se aí.
Para mim tornou-se bem claro que era altura de me ir embora. Desci de forma enérgica e segura do meu posto de contemplação sobre a mesa, e, sem voltar a olhar directamente para o indivíduo, iniciei o meu afastamento na direcção oposta àquela da qual ele tinha vindo.
Após um número de passos considerável olhei para trás. Sem grande surpresa constatei que o lobo mau vinha no meu encalço.
Terei dado mais alguns passos, certamente em ebulição crescente, até assumir um modo operativo que já conheço em mim de outras situações na vida... é caracterizado por eu assistir a acções que o meu corpo desempenha sem consultar a razão.
O meu corpo ostensivamente parou…
Ostensivamente baixou-se…
Ostensivamente apanhou um pedregulho de dimensões adequadas ao encaixe e preenchimento da palma da mão direita disposta em concha…
e ostensivamente, virou-se para trás…
O lobo mau estava também parado, imóvel, surpreso… Fazia o que os lobos fazem perante a contrariedade… analisava o contexto e as alternativas que se lhe apresentam.
O lobo mau deu meia volta, e voltou a trote para de onde tinha inicialmente vindo…
Nessa tarde, tudo podia ter corrido mal, muito muito mal… 
… mas à semelhança do pequeno capuchinho vermelho referido no texto de Lídia Jorge, também eu tive sorte.