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Wednesday, December 24, 2014

Thursday, November 27, 2014

[ A minha História de Portugal #1 ]




"06 de Novembro de 1810: 17h02m. Os dias são já tristemente mais curtos. As horríveis noites são demasiado longas. A humidade dos bosques de outono entranhou-se definitivamente na roupa e nos ossos. Os dias sucedem-se sem uma nesga de sol que ajude a secá-los.
Assim que paramos de nos mexer, algo que o corpo pede permanentemente, o frio instala-se numa questão de minutos. Se não nos obrigarmos a algum movimento, rapidamente começamos a tremer sem conseguir parar… É isso que explica o deambular lunático de alguns de nós, em torno do amontoado de espingardas e mochilas, sem motivo aparente… Mas sim, estamos loucos.
À noite, no entanto, a exaustão obriga-nos a deitar por algumas horas. Apesar de estarmos colados uns aos outros para aproveitar o pouco calor emanado da trouxa malcheirosa que é o nosso camarada do lado, e embrulhados na nossa manta de campanha, juntamente com outra que tenhamos eventualmente conseguido roubar a um morto… trememos sem fim. Dormir torna-se impossível.
Amanhã será mais um dia de exaustão. Ao cansaço que já trazemos hoje às costas, somar-se-á o de mais uma noite implacável, sem pregar olho. Dormiremos depois durante o dia, por pequenos períodos de paragem nas tarefas que os ingleses nos distribuem.
… Espero que saibam o que estão a fazer, e que Massena não consiga o que Junot e Soult já tentaram.
O que mais quero é voltar à aldeia e abraçar a minha mãe.
… Como sinto a falta da segurança reconfortante das noites à lareira, a ouvir estórias banais do antigamente…
Deus Nosso Senhor me ajude a sobreviver inteiro a este inferno."

Thursday, November 20, 2014

[ Auto da Índia #12 ]

A minha ilustração da capa do Auto da Índia é um pouco como um retrato do pedaço de terra de origem desta viagem.
Aparentemente tudo calmo, mas só aparentemente.
Se Gíl Vicente ainda por cá andasse, muito teria para escrever.
O ângulo corresponde a uma perspectiva de gaivota… Gosto das texturas da madeira e do tecido amarelado das velas gastas, da complexidade intrincada dos volumes das madeiras que compõem os elementos funcionais do casco, do convés e da amurada. Gosto das cores da água quente levemente sulcada por esta casca transportadora de náufragos.

Sunday, November 2, 2014

[ Alimentos Especiais na Diabetes _ Lacticínios ]


Junte-se por favor chocolate em pó, em quantidade generosa, à caneca de leite, que se espera esteja morno (para quente). O queijo fresco deve ser gradualmente desmantelado e transportado em pequenos blocos, do prato cor de laranja em que se encontra, para tostas estaladiças, em que é espalhado em camadas de espessura generosa e coberto por doce de abóbora à temperatura ambiente. Alternadamente pode-se também considerar ingerir bolachas Maria, de uma marca que não as faça muito doces, também cobertas de doce de abóbora (há que compensar a falta de açúcar com que a tal marca faz as tais bolachas Maria). Após 3 destas tostas e duas daquelas bolachas é já oportuno abordar um croissant folhado tipo franciú, generosamente barrado com manteiga fria recém retirada do frigorífico. Depois de limpar a parte de cima do croissant, mais estaladiça e quebradiça, apenas com manteiga, poderá eventualmente espraiar-se na metade de baixo sobrevivente, uma ou duas finas fatias de fiambre de peito de frango, fumado. Seguidamente volte-se às tostas, e faça-se um refill do leite e do chocolate. Volte-se também às bolachas Maria presenteando esporádicamente uma ou outra com um pedaço de queijo (salgado e doce sempre funcionou bem em contextos especiais). …

Fazer posts no blogg, tal como ir às compras, é tarefa que não deve ser levada a cabo de estômago vazio, especialmente se a bonecada em causa representar ingredientes de pequeno almoço, que é, como se sabe, a refeição mais importante para o ser humano lúcido e saudável…

Tuesday, October 7, 2014

[ Auto da Índia #09 ]


Tenho andado atarefado…
Horas seguidas sentado… dia e noite.
Para alguém que acredita que estar sentado durante muito tempo seguido é contra natura, e que os nossos corpos não estão feitos para isso,…  nem tudo vai bem.
As costas começam a ressentir-se… A zona lombar queixa-se de forma gritante.
Restam-me os alongamentos e alguns exercícios executados a custo, na perspectiva de conseguir enganar o corpo… e claro, os banhos de mar.
Dedico-me a este sacrifício fisíco, obviamente por bons motivos.
A não perder, aqui, nos próximos episódios.
Até lá… a ama fechou a portada da janela ao nosso amigo castelhano, a quem só resta ir causar distúrbios para outra parte da localidade…

Sunday, August 17, 2014

[ leguminarium ]

Os meus primeiros desenhos dignos desse nome foram feitos a partir de ossos, couves, aipos…
Nesses trabalhos entreguei-me, rendido, à transposição para o papel da fascinante complexidade dessas formas orgânicas. Acabei a desenhar crâneos de borrego com sangue de galinha.
A natureza sabe bem aquilo que faz.
De tal forma me identifico com o resultado dessas tardes artísticas que eis que chego à maturidade da idade adulta com duas dessas representações ainda penduradas nas paredes da nossa sala.
Essa familiaridade com o universo dos referentes trazidos das idas à praça no mercado da ribeira, e aos talhos amigos, de entrecampos e de alvalade, fez com que perante o pedido de produção de uma representação de "bróculos",  destinada a ilustrar uma publicação com recomendações alimentares para diabéticos, eu tenha sido de imediato transportado pela memória, para o jogo de sobreposição de talos e nervuras com modulações orgânicas e respectivos jogos de sombras.

Monday, July 21, 2014

[ A Anita manda nos homens #2 ]


(…)
"O jantar está uma merda!!! – rosnou bruscamente Rosemary como era hábito, sempre que trazia algum problema do trabalho."
(…)


Meet Rosemary… o ogre doméstico, em todo o seu explendor.
Esta representação da minha imagem mental da sedutora Rosemary é dedicada a todos os homens e mulheres que utilizam o recurso à corrosão do empenho e dedicação culinária da sua/seu companheira/o, como uma agressão, e uma forma de reduzir a sua auto-estima, bem como a segurança da sua personalidade. 
De facto esta manobra psicológica está presente em muitos lares da nossa praça, e encontra facilmente paralelo nas requintadas formas de tortura lenta e subtil de alguns sistemas opressivos.
A diferença é que neste caso o divórcio resolve a coisa e permite à criatura oprimida partir para refeições bem mais tranquilas.

Wednesday, July 16, 2014

[ A Anita manda nos homens #1 ]





" O seu coração agitou-se, 
enquanto Rosemary abocanhava o seu delicado sexo. 
Contraiu-se mas não conseguiu acautelar a ereção. Ela abusou tresloucadamente do seu frágil pénis."
(…)


O meu amigo João Lourenço convidou-me para ilustrar um texto de Frederico Pinto, integrado no livro "27 acrobacias sobre (quase) a mesma coisa – igualdade de género contada e ilustrada".
O título é extenso mas, o tema é tudo menos reduzido.
A minha ilustração é baseada na curiosa inversão de papéis proposta no texto do Frederico, e é o meu modesto contributo para esta iniciativa da ESDIME, de promoção da igualdade de género. 
O meu manifesto é, não pela igualdade dos géneros (só Deus sabe como valorizo as diferenças entre nós), mas sim pela interiorização individual da igualdade de direitos contemplada nas leis do mundo ocidental, pelo respeito mútuo e equiparado para e por ambos os géneros, e, pela valorização da contemplação maravilhada perante as diferenças que nos aproximam.

Friday, May 30, 2014

[ Auto da Índia #01 ]


Estou de volta a Gil Vicente.
Corria o ano de 1509 quando Gil Vicente viu, pela primeira vez, o seu Auto da Índia ser apresentado publicamente. 
Na audiência estava nada menos que uma Rainha: D.ª Leonor.
A acção desta peça desenrola-se no espaço da casa de uma mulher adúltera, Constança, entretida com dois relacionamentos extra-conjugais durante a ausência prolongada do marido, nas peleias pelas riquezas das Índias.
O enredo é mais uma vez bastante ousado, ainda para mais, tendo em conta que estamos numa época em que a influência da igreja católica nas várias dimensões da vida na sociedade portuguesa, era imensa (nada que demovesse o autor destas e de outras investidas).
Constança conta com a cumplicidade reticente da sua empregada doméstica, que alterna entre os favores dedicados à sua senhora, e as tiradas moralistas em defesa do amo ausente.

Tuesday, May 27, 2014




A idade está a afectar-me… Este, não é um blogue sobre actualidade.
MAS…
Através de notícias presentes nas páginas de alguns veículos de informação credíveis, de várias nacionalidades, fiquei hoje a saber que, de acordo com algumas correntes culturais ainda existentes no Paquistão, o facto de uma mulher se casar, por sua iniciativa, e de livre vontade, com um determinado homem escolhido por si, em vez de seguir a opção matrimonial que lhe é imposta pela família, constitui uma desonra para a referida família.

http://www.publico.pt/mundo/noticia/paquistanesa-morre-apedrejada-em-nome-da-honra-da-familia-1637660

http://www.reuters.com/article/2014/05/27/us-pakistan-honourkillings-idUSKBN0E711A20140527

http://www.bbc.com/news/world-asia-27593504

No Paquistão, os seguidores desta corrente cultural, matam estas mulheres à pedrada…
Mesmo que estejam grávidas de três meses. Mesmo que se encontrem à porta de um tribunal. Mesmo que ela tenha 25 anos.
Ao que parece a tarefa tem lugar de "honra" para os parentes homens como pai e irmão, e talvez (suposição minha) alguns "amigos" mais próximos. Ao todo entre 12 e 20 "pessoas".
O caminho percorrido pelo homem-macaco, das trevas da caverna para a Luz, é longo. Muitos de nós estamos muito atrasados nesse percuso.
Paz à tua alma Farzana Iqbal.

Thursday, May 22, 2014

Thursday, May 8, 2014

[ Anatomia I ]


Esta vida de… (???) tem destas coisas…
A maioria dos desenhos que faço são, por vários motivos possiveis, mais complexos que este.
Têm mais traçado, têm perspectivas mais elaboradas, possuem fundos complicados de representar, jogos de luz mais exigentes, etc.
No entanto, fiquei especialmente bem relacionado com o resultado da representação desta pequena. Vestindo-se, de braço no ar, acabado de passar pela abertura do seu vestido, tentei que a mão que está erguida parecesse pairar na descontração de um elemento que faz parte do todo mas que não participou da tarefa que está em curso.
Gosto da complexidade deste boneco simples.

Wednesday, April 30, 2014

[ Peregrinação ]

Fim-de-semana Re-Ligioso
(em alusão ao sentido do termo latino original)
…Voltar a ligar…

A água ainda corre nos rios, as flores ainda estão nas hastes, que por sua vez, ainda estão verdes. 
Ainda estão por todo o lado…
Confirma-se que as estrelas ainda estão todas no céu negro, e que os amigos estão bem…
O ar fresco do fim de dia, junto com o cheiro da erva pisada, e o vento frio da noite, continuam a ser bons de inspirar.
Continua-se a adormecer bem a ver o céu. 

Sunday, April 13, 2014

Sunday, March 30, 2014

[ Gato voador ]


Sim. É de facto um gato de barbatanas azuis… a "nadar" no vazio do ar… bem próximo do tecto do corredor da casa.
A pequena acha estranho…

Sunday, March 23, 2014

[ Liberdade ]




Ai que prazer
Não cumprir um dever
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada, 
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,

E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Fernando Pessoa, “Liberdade”, in Amélia Pinto Pais,
Fernando Pessoa, O menino de sua mãe, Areal


Identificação imediata, foi o que senti ao ler este poema do colega do meu pai (como ele meu pai frequentemente diz).
O senhor Pessoa colega do senhor Saias.
Ao rever-me assim nas ideias do senhor Pessoa, tão fácilmente centradas nas manifestações naturais, foi também natural representá-lo de papo para o ar, numa postura contemplativa do vazio do céu, cujo azul aparece levemente reflectido nas lentes dos seus frágeis óculos. Comportamento que me é muito familiar…

Entretanto, deve-se o ritmo brando das mais recentes publicações neste blogg a um acontecimento inesperado sobre o qual se impõe fazer um alerta aos caridosos leitores:

"… Gravai os vossos backups importantes, pelo menos, em RAID 1…"

A frase está entre aspas, não por não ser da minha autoria, mas como convite a que seja tida como algo com a importância de um mandamento digno de ser afixado na parede.
Para quem não sabe o que é RAID 1 aqui vai uma breve e ilucidativa contextualização.
Há coisa de 4 ou 5 anos decidi investir na compra de um disco externo para proceder ao armazenamento do meu trabalho. Crente de que esta medida seria uma forma segura (pura ilusão) de preservar os (para mim) valiosos ficheiros, foi com espanto que há coisa de um mês e meio fui surpreendido por um comportamento estranho do dito aparelho, sintomático do seu colapso, que de um momento para o outro começou a produzir um ruído semelhante a uma máquina de pipocas a funcionar em câmara lenta. 
De um momento para o outro todo o material ali guardado estava refém desta caixa preta barulhenta, muribunda e agora inacessível.
A boa vontade e persistência de uma amigo, profissional na matéria, conseguiu resuscitar o património ilustrado, mas a verdade é que não ganhei para o susto.
Decidi então dar o grande passo e perder o "amor" a uma quantia tal, que ao sair da minha conta insistiu em me acenar com a sua potencial aplicação numa série de outras utilizações bem mais agradáveis e prazerosas… sou agora detentor de um sistema de backup que executa a duplicação automática da informação armazenada, através de dois discos ligados em espelho, ou seja, RAID 1.
Se um destes ovnis morrer ao meu serviço terei sempre a possibilidade de recorrer ao património genético do seu irmão gémeo, armazenado então em espelho a dois cêntimetros de distância.
O ritmo lento de publicações neste blogg deveu-se então à demora do processo de ressureição da informação e à sua transposição para uma plataforma um pouco mais segura.
Só agora todos estes bits estão de volta ao meu atelier.


Sunday, February 23, 2014

[ O rapaz que tinha um nariz do tamanho de um chouriço ]


"…Custou-me muito nascer. Estava tão bem desnascido, aconchegado, sem ter nada que fazer. Mas tinha de ser. Foi então que apareceu a fada. Tinha duas asas fininhas que a mantinham no ar e trazia uma saia cor-de-rosa, muito rodada, que já não se usava. Não foi convidada mas apareceu. Foi o que lhe deu. Pousou a mão na minha testa e disse: – A vida deste rapaz vai dar para o torto. – Não diga isso – pediu a minha mãe, muito aflita. – Digo, pois – voltou a fada. – Ele terá um nariz do tamanho de um chouriço. Por isso...
– E foi mesmo isso que aconteceu. O tempo ia passando e o meu nariz crescia mais depressa do que eu. Quando parei de crescer tinha um nariz a perder de vista, mas continuava otimista. Um nariz do tamanho de um chouriço? Podia ser pior, dizia eu. E agora pergunto: não era pior se fosse do tamanho de um presunto?…"

Álvaro Magalhães, O Senhor do seu nariz e outras histórias